Pode-se distinguir o pensamento convergente do pensamento divergente. Aquele é o pensamento que recorre à lógica e é dominado pela objetividade em que predominam os raciocínios hipotético-dedutivos. É um pensamento orientado para a resolução de problemas e baseado em regras lógicas e em conhecimentos teóricos. Pelo contrário, o pensamento divergente associa-se à imaginação e criatividade. Permite que o pensamento vá além dos limites da realidade percetível e se estenda por domínios inimagináveis para a maioria das pessoas. Este tipo de pensamento implica a exploração cognitiva de várias soluções diferentes e inovadoras para o mesmo problema, dominando a intuição sobre as operações mentais de tipo lógico-dedutivo que caraterizam o pensamento convergente. A criatividade, indissociável da imaginação, permite abrir o pensamento a novas visões da realidade. A originalidade, a inovação, a invenção e fantasia, são caraterísticas fundamentais da criatividade. O ambiente social pode estimular a criatividade, mas são sobretudo caraterísticas pessoais, como a curiosidade, o inconformismo, o gosto pelo desconhecido e pela novidade, a autonomia, a inquietação e insatisfação face ao que existe, que favorecem a atividade criativa.
Não é correta a associação da criatividade exclusivamente às produções artísticas, pois ela manifesta-se igualmente noutras atividades humanas como produções científicas (a formulação de hipóteses, por exemplo, é um momento criativo em ciência), criações políticas, técnicas e até na resolução inovadora de problemas do quotidiano. É sobretudo a criatividade, e não apenas conhecimentos teóricos e técnicos, que faz a ciência evoluir. A criatividade não tem limites, extravasando relações com o real e a lógica humana. O inventor, que usa a criatividade e a imaginação, ultrapassa o domínio do real, criando um mundo fantasioso e inovador sendo, desse modo, um futurista e visionário que antecipa qualquer visão realista do mundo. A ficção está presente na sua mente e a criatividade, dom com que perceciona a realidade, serve-lhe de orientação existencial. O homem criativo não se acomoda ao mundo percecionado, indo além dele e estabelecendo com o real uma cumplicidade que se estende a horizontes inatingíveis pela maioria dos mortais. Será que ele alcança a verdadeira realidade? (o mundo inteligível de Platão?) Aquela realidade de que todos nós vivemos esquecidos? A criação, poder da omnipotência de Deus, está também presente no homem que entende o mundo e a realidade como demasiado limitados e quer abrir horizontes no sentido de conhecer e compreender outros mundos. O homem criativo é um crítico da realidade que percebe as coisas modificadas na sua natureza, tal como se mostram acessíveis a todos nós, muitas vezes mais preocupados com o dia a dia, nos afazeres profissionais e familiares e que nos tornam autómatos na concretização de uma vida equilibrada e organizada. É só o que queremos, mas a criatividade exige mais: quer ir além da mediocridade da vida segura e equilibrada, quer conhecer o verdadeiro sentido que nos faz viver. Sendo assim, o homem criativo procura descobrir um mundo distante, desligado do real imediato e de aparências e ilusões com que nos deparamos permanentemente. O óbvio torna-se problemático para o cientista, o filósofo, o inventor e artista, que fantasiam uma realidade para muitos, inexistente, que procuram desocultar o desconhecido. A maioria de nós é cativa dos preconceitos e das aparências de que a criatividade nos pode libertar. Criatividade e curiosidade coexistem, sendo que o homem criativo não se habitua nem adapta ao mundo físico em que vivemos, para ele este mundo é sempre algo de novo que lhe provoca estupefação. A criatividade implica transfiguração e por ela o homem criativo transcende-se a si mesmo e infiltra-se num mundo imaginário que por acaso, ou não, pode coincidir com um verdadeiro real ainda para nós desconhecido e que urge desvendar.