24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

Pedro Falcão

A Arte na filosofia

19 de Dezembro 2025

Uma das conceções filosóficas mais interessantes e profunda sobre a função da arte no contexto da cultura e da vida humanas é a do filósofo alemão do século XIX, George Friedrich Hegel (1770- 1831). Para Hegel, a arte é a primeira expressão de um Espírito Absoluto que envolve a totalidade do real. Segundo o filósofo, «a arte tem por objetivo o sensível espiritualizado ou o espírito tornado sensível» (“Fenomenologia do Espírito”). A arte é assim, no pensamento hegeliano, a manifestação desse Absoluto mediada pela criatividade do espírito humano, sendo este uma expressão próxima daquele Espírito Absoluto que constitui o Todo. O artista é quem dá relevo ao Espírito, à realidade profunda de todas as coisas, através da sua atividade criadora. Ainda segundo Hegel, a beleza imediata da natureza é inferior à beleza artística porque a obra de arte, produto da criação humana, revela, descobre, o Espírito em si mesmo. A beleza artística surge, como defende este filósofo, da unidade entre espírito e matéria, numa síntese harmoniosa: a arte conduz à espiritualização da matéria. A obra de arte é tanto mais perfeita quanto mais perfeita ou completa é a harmonia entre o seu conteúdo espiritual e a forma sensível, isto é, o modo de se manifestar em diversificadas produções artísticas, na pintura, na escultura, na arquitetura, na literatura ou na música.  Hegel avalia diferentes manifestações artísticas, abordando primeiro o que designa por arte simbólica, própria do mundo oriental e expressa na pintura e que consiste no predomínio da forma sensível sobre o conteúdo espiritual.  O Absoluto é, na arte simbólica, ocultado pela forma ou elemento sensível, revelando-se apenas e ainda de modo indefinido e misterioso. Ao analisar a arte clássica, Hegel explica que nela o elemento sensível e o seu conteúdo espiritual se fundem numa harmonia plena e perfeita. Sendo uma arte predominantemente antropomórfica, porque os deuses são representados sob a forma do corpo humano, o conteúdo espiritual revela-se no elemento sensível que representa esse mesmo corpo. Apesar de ser uma perfeita e eterna manifestação de beleza, expressa sobretudo na escultura, a arte clássica, que se manifesta igualmente na arquitetura, não representa, segundo Hegel, a forma mais elevada de manifestação do Espírito Absoluto, pois estando associada à beleza antropomórfica, nela o Espírito não se encontra a si mesmo, porque há ainda um apelo à exterioridade e ao sensível. Por isso, para Hegel, a arte romântica, com influências do cristianismo, é aquela em que o Espírito Absoluto se manifesta na sua plenitude como “Absoluto”, não através das artes plásticas mas da música e da lírica. Esta forma de arte corresponde à expressão da interioridade do sentimento e ao predomínio da espiritualidade em detrimento da matéria e do sensível.

O Espírito Absoluto existe “em si” e “por si” e manifesta-se fora de si, como sendo “outro de si”, na matéria e na espiritualidade humana. É pela arte, religião e filosofia que aquele Espírito regressa a si como autoconsciência ao mesmo tempo que o Homem, sobretudo através da obra de arte, se consciencializa dessa presença espiritual no mundo.  Esse Espírito que tudo abarca revela-se a si mesmo no que é “em si” pelas produções artísticas humanas. Deste modo se concilia a necessidade de o Absoluto se manifestar mediante o finito, afirmando-se simultaneamente como ser infinito, eterno. Na verdade, o Espírito Absoluto realiza a sua essência como automanifestação e unidade do Idêntico – o “em si”, o infinito – e da alteridade – o “outro de si”, o finito. Daí o valor inigualável que Hegel atribui à arte, religião e filosofia como atividades culturais do Homem que testemunham e presentificam o espiritual no mundo físico e ascendem à Verdade. A arte, mais do que a religião ou a filosofia, permite ao Homem ascender ao Absoluto, simultaneamente transcendente e imanente.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM