2 de Outubro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Objeções à teoria expressivista da arte (II)

2 de Outubro 2026

A teoria expressivista da arte é uma teoria essencialista que procura expor uma definição de arte, captando a sua essência, entre outras definições de arte de diferentes teorias. O escritor russo Lev. Tolstoi (1828-1910) e o filósofo inglês Robin Collindwood (1889- 1943) são os representantes máximos desta teoria da arte. É útil analisar algumas das objeções a esta teoria. Assim, em primeiro lugar, há vários e muitos objetos artísticos que não expressam qualquer emoção: o recetor da obra de arte pode sentir alguma emoção ao contemplar a obra, mas isso não quer dizer que o artista tenha tido a intenção de expressar emoções e sentimentos ao criar a obra; outra objeção importante está relacionada com a identidade emocional que se estabelece, segundo Tolstoi, entre o artista e aquele que contempla a obra de arte. Essa identidade de emoções é quase impossível de se estabelecer: não há possibilidade de saber se o recetor da obra de arte sente as mesmas emoções que o artista ao criar a obra; também a ideia da partilha de sentimentos e emoções entre criador e recetor da obra de arte é dificultada pelas formas de manifestação artística que recorrem a mediadores entre o artista, criador da obra de arte, e o recetor dessa obra. Por exemplo, no teatro, na ópera, na dança e na música existe um intérprete que é o executor da obra de arte e existem ainda as pessoas que dirigem o intérprete (o encenador, o realizador, o coreógrafo, o maestro, etc.). Nestas formas de arte coloca-se a questão de saber quem gera sentimentos e que tipo de sentimentos: muitos intérpretes, por exemplo, no teatro, não terão de se sentir tristes ou alegres, angustiados ou esperançados para transmitirem e gerarem aqueles sentimentos no público. Eles apenas representam, fingindo estar tristes ou alegres. Tudo depende da capacidade do intérprete de saber transmitir ou não os sentimentos e emoções do criador da obra, assim como a capacidade do encenador ou coreógrafo orientarem o intérprete na expressão ou não desses sentimentos; outra objeção à teoria expressivista de Tolstoi é que nem todos os artistas sentem realmente (com autenticidade) os sentimentos e emoções que transmitem na sua obra. Isto coloca em causa o pressuposto da teoria de que tem de haver autenticidade por parte do artista na expressão dos sentimentos.   Por último, a teoria expressivista da arte recorre a uma falácia intencional: de acordo com o pensamento de Tolstoi e de Collingwood, a obra de arte define-se também a partir das intenções que o artista tinha quando a criou – o problema aqui é que apenas o artista sabe que intenções tinha quando criou a sua obra sendo isso desconhecido para o recetor da obra. Em muitos casos nem o artista tem noção clara das suas intenções quando produz a obra. Para muitos filósofos, a falácia intencional surge quando se afirma categoricamente que uma obra de arte deve ser apreciada unicamente em função das intenções do artista no seu ato de criação – para esses filósofos, as intenções do artista ao produzir uma obra são irrelevantes para contemplar e apreciar genuinamente uma obra de arte.


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