Em Portugal, as doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte. Todos os anos, milhares de portugueses sobrevivem a um enfarte agudo do miocárdio (EAM). Mas o verdadeiro desafio começa depois: garantir que esse primeiro episódio não se repita.
Os dados são claros: cerca de 1 em cada 4 doentes volta a ter um evento cardiovascular no primeiro ano após um enfarte. A boa notícia é que dispomos de estratégias eficazes para reduzir drasticamente esse risco. A prevenção secundária — o conjunto de medidas adotadas após o primeiro evento — pode mudar o peso da mortalidade cardiovascular em Portugal.
Controlo rigoroso dos fatores de risco
O colesterol LDL (o chamado “colesterol mau”) é um dos principais responsáveis pela aterosclerose, a doença na base do EAM. A ciência é inequívoca: por cada redução de 38 mg/dL no colesterol LDL, o risco de eventos cardiovasculares diminui cerca de 22% e a mortalidade total reduz 10%. Por isso, o objetivo é baixar o LDL de forma potente e sustentada. Hoje, além das estatinas, existem opções orais (ezetimiba, ácido bempedóico) e injetáveis de elevada eficácia e segurança. Os inibidores da PCSK9, como o evolocumab (injecção subcutânea a cada 2 semanas), e o inclisiran (apenas uma injeção a cada 6 meses) representam uma verdadeira revolução terapêutica. O nível de LDL recomendado deve ser definido pelo médico assistente — a ciência não identificou limite inferior de segurança, e sabemos que, quanto mais baixo, melhor.
O controlo da hipertensão arterial também é crucial: por cada redução de 10 mmHg na pressão arterial sistólica, a mortalidade cardiovascular diminui 17%. O controlo da diabetes, além dos benefícios metabólicos, é essencial. Alguns medicamentos, como os agonistas do recetor GLP-1 (conhecidos como “drogas para a obesidade”), têm impacto reconhecido na melhoria da doença aterosclerótica.
Estilos de vida que salvam vidas
Suspender o tabagismo é, talvez, a medida mais impactante: deixar de fumar reduz de imediato a mortalidade cardiovascular para metade. A adoção da dieta mediterrânica e o aumento da atividade física, combinados, podem reduzir a mortalidade em 55%!
Reabilitação cardíaca: dar vida aos anos
Todos estes fatores são melhor geridos num programa de reabilitação cardíaca. Através de acompanhamento multidisciplinar e personalizado, estes programas melhoram significativamente a qualidade de vida e o prognóstico dos doentes cardiovasculares.
O objetivo é claro: dar anos de vida, mas sobretudo, dar vida aos anos dos nossos doentes. Sobreviver a um enfarte é o início de um compromisso com o próprio coração. A adesão à terapêutica e o acompanhamento médico fazem a diferença.
* Cardiologista de Intervenção na ULS Coimbra