Saí para caminhar pela minha cidade, numa dessas tentativas de expulsar a tristeza através do movimento. Não sei se os passos curam a tristeza, mas pelo menos fazem-me tropeçar em histórias.
Ao aproximar-me de uma paragem de autocarro, reparei num senhor idoso sentado no banco, com aquele tipo de sorriso raro que parece iluminar a rua. Reconheci-o de imediato. Sentei-me ao seu lado e lancei a pergunta que envolve sempre algum risco:
— Sabe quem sou?
O senhor olhou para mim com atenção, como quem procura uma fotografia antiga numa gaveta cheia de recordações.
— A sua cara parece-me conhecida, mas não me lembro de quem é.
Era exatamente a resposta que eu esperava. E, confiante como uma basquetebolista na linha de lançamento livre, atirei:
— Sou filha de um senhor de Podentes.
Cesto….
— Então é a Clarinha!
Conversámos devagar, como se o tempo tivesse decidido sentar-se connosco naquela paragem. Falámos de amigos que, entretanto, passaram a morar nas nossas memórias, o António e o Augusto. Falámos de política, uma paixão que partilhamos e sobre a qual o meu interlocutor fala com a autoridade de quem foi Presidente de Câmara. Falámos do Serviço Nacional de Saúde e da necessidade de o defender sem reticências, sem notas de rodapé e, sobretudo, sem “mas” e “porquês”.
A certa altura fiz um resumo acelerado dos meus últimos anos: cidades, empregos, universidades, mudanças e desafios. Uma espécie de versão condensada da minha vida, adequada ao tempo de espera de um autocarro. O senhor ouviu tudo com atenção e foi comentando aqui e ali, com aquela sabedoria tranquila que só os anos conseguem fabricar.
Enquanto o escutava, pensei que há conversas que alimentam mais do que um bom almoço de domingo. Há pessoas que, sem o saberem, nos devolvem o equilíbrio. E naquele dia, naquela simples paragem de autocarro, eu estava a receber uma generosa dose de alimento para a alma.
Quando chegou o momento de nos despedirmos, julgava eu que a melhor parte da conversa já tinha acontecido. Enganei-me, porque o senhor olhou para mim, sorriu e disse:
— A menina dá ares do seu pai.