Um ecossistema de produção, formação e cultura do ofício apoiado na chegada do IKEA à cidade.
A ideia combina três realidades: a matriz medieval da Baixa de Coimbra (onde cada rua tinha os seus mesteirais: ferreiros, sapateiros, tanoeiros), a chegada do IKEA como catalisador de procura de mobiliário e personalização, e a carpintaria da prisão como infraestrutura produtiva subutilizada. É um triângulo perfeito.
O conceito assenta em três ideias-força que se reforçam mutuamente:
A matriz medieval como DNA urbano. A Baixa de Coimbra já foi organizada exatamente desta forma; cada rua com o seu mester. A Rua dos Sapateiros, a Rua da Sota, os arcos junto ao Jardim da Manga. Reativar esta lógica não é nostalgia, é identidade com função económica. O espaço não seria uma única loja, mas um conjunto de pontos distribuídos pela malha existente, como fazia o artesanato medieval.
A carpintaria da prisão como núcleo produtivo. O Estabelecimento Prisional de Coimbra já tem infraestrutura de carpintaria. A ideia seria formalizar uma parceria com a DGRSP e o IEFP para que reclusos em fase de pré-saída produzam peças com certificação profissional, criando um modelo de reinserção com mercado real. Há precedentes internacionais muito interessantes, no Reino Unido, nas Filipinas, em vários países nórdicos.
O IKEA como aliado, não como inimigo. A chegada do IKEA a Coimbra vai criar uma procura por personalização que o próprio IKEA não consegue satisfazer: puxadores feitos à mão, peças de madeira maciça para complementar, adaptações de medida para casas antigas e estreitas que abundam em Coimbra. A oficina poderia posicionar-se explicitamente como o “layer artesanal” sobre o IKEA: o conceito “hack-the-IKEA” tem uma comunidade global enorme.
Em termos de modelo físico, eu organizaria o espaço em quatro momentos numa rua ou num conjunto de edifícios contíguos: primeiro o atelier aberto, onde a produção é visível da rua (a janela para o ofício, como faziam os mestres medievais); depois a escola-oficina, com mestres residentes e cursos formais; a seguir a loja-galeria, onde as peças têm preço e história; e por fim um espaço de café e residência para artistas e designers convidados, que gera animação e traz colaborações.
A Universidade de Coimbra entra naturalmente como parceira: as faculdades de Arquitetura e Engenharia de Materiais têm muito a ganhar com um laboratório vivo deste tipo, e os estudantes têm muito a dar em troca.