22 de Maio de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Indícios para a compreensão do comportamento humano (I)

30 de Abril 2026

Não é sem dificuldade que se explica, mesmo cientificamente, o comportamento humano, tal a sua complexidade e multidimensionalidade marcada pela interação de múltiplos fatores. Fatores biogenéticos e físicos e determinantes histórico-sócio-culturais contribuem, em maior ou menor grau, para a formação da personalidade e, consequentemente, para o comportamento que se expressa de modo diverso. O ser humano é compreendido como unidade dinâmica bio-psico-sócio-cultural e é a partir desta multifacetada realidade que podemos aproximar-nos de uma explicação sobre o que é mais determinante no comportamento humano tal como ele se manifesta nas variegadas atitudes e comportamentos individuais. “Todo o ato humano é, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural”, afirmou Edgar Morin, acrescentando que “o Homem é um ser cultural por natureza por ser um ser natural por cultura”.

Apesar do desconhecimento que temos ainda sobre a totalidade das funcionalidades do cérebro humano, sabemos que ele com as suas estruturas complexas, conjuntamente com os sistemas nervosos, coordena os diversos comportamentos. Mas é inegável que a cultura e a sociedade em que cada um vive, com os seus códigos morais e sociais, assim como as experiências pessoais, são também determinantes no desenvolvimento cerebral e, correlativamente, nas expressões comportamentais. O cérebro humano possui uma plasticidade que lhe permite remodelar-se ao longo de toda a vida e reformular as suas conexões em função das exigências dos contextos ambientais em que cada sujeito vive. As redes de neurónios, que alimentam o cérebro, regeneram-se em virtude das experiências pessoais vividas. Desse modo, as diferenças comportamentais, de indivíduo para indivíduo, relacionam-se sempre com uma história pessoal de vida. Isto mostra que o cérebro não está na sua totalidade predeterminado geneticamente: o cérebro é a fonte do comportamento, mas este, como resposta a diversificadas situações e contextos, é simultaneamente causa da metamorfose cerebral. Sendo deste modo, é importante considerar o processo de socialização e a enculturação de cada indivíduo num meio particular para compreender o seu comportamento. Os diferentes contextos sócioculturais em que se desenvolvem aqueles processos de interiorização/assimilação e adaptação, traduzem distintas formas comportamentais. Devido a uma constituição genética particular, cada ser humano é original o que se reflete consequentemente nas diferenças de personalidade e de comportamento. Mas as normas e valores instituídos numa sociedade e cultura contribuem para a uniformização de comportamentos dos indivíduos que vivem num mesmo grupo histórico-sócio-cultural, facilitando o jogo de mútuas expetativas que carateriza a vida social e as vivências culturais. Esperamos dos outros comportamentos que os outros esperam de nós.

Apesar disto, se a compreensão do comportamento humano depende, em certa medida, do conhecimento do que é o Homem, pode-se então afirmar, e numa perspetiva filosófica, que “o Homem é fundamentalmente mais do que o que pode saber acerca de si mesmo” (Karl Jaspers).


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