José Lopes da Fonseca, mais conhecido como Zé Trego, nasceu em Coimbra, em 1883, e ali viria a morrer a 22 de abril de 1976, aos 93 anos. Fará, portanto, na próxima quarta-feira 50 anos da sua morte. José Eliseu Lopes, neto orgulhoso, reconhece o percurso indiscutível do avô e afirma que “era uma pessoa extremamente culta”, que muito contribuiu para a cultura coimbrã. Tem ainda hoje uma admiração infinita e um orgulho enorme no seu avô.
A vida de Zé Trego, profundamente enraizada na Alta da cidade, confunde-se com a própria história cultural de Coimbra ao longo de grande parte do século XX. Trabalhou na Escola do Magistério Primário de Coimbra, mas foi na profissão de barbeiro que ganhou mais visibilidade, tendo exercido a sua atividade numa barbearia situada no Largo do Museu Machado de Castro, junto à Igreja do Salvador.
O espaço foi muito mais do que um simples local de trabalho: tornou-se um verdadeiro ponto de encontro cultural. Já na porta da sua casa, onde sempre viveu, na rua São Salvador, n.º 33, há uma placa evocativa, uma homenagem feitas pelos Salatinas a Zé Trego.
Na altura, a barbearia de Zé Trego ganhou fama como um espaço singular, quase mítico. Ali reunia-se uma clientela heterogénea, desde estudantes universitários a músicos, passando por poetas e elementos do folclore local, criando um ambiente de tertúlia e partilha pouco comum.
Entre os frequentadores destacavam-se nomes maiores da cultura portuguesa, como Afonso Duarte, Artur Paredes e José Régio, figuras ligadas à poesia, à música e ao pensamento da época. Mais do que clientes, eram participantes ativos de um espaço onde a conversa, a música e a criatividade fluíam livremente.
Seguindo uma tradição europeia de finais do século XIX, comum em barbearias, Zé Trego mantinha instrumentos musicais no seu estabelecimento. Durante as pausas entre “barbas e cabelos”, ensinava e tocava viola e guitarra, contribuindo para a difusão da música em Coimbra. Muitos estudantes da Universidade aprenderam ali os primeiros acordes.
Mestre de músicos e guardião de tradições
Zé Trego não era apenas barbeiro, era também músico, cantor e mestre informal. Tocava viola com mestria e tinha uma voz de tenor reconhecida. Foi responsável por ensinar música a inúmeros jovens, destacando o próprio guitarrista e compositor Flávio Rodrigues, antes de se estabelecer por conta própria e tornar-se uma referência na guitarra de Coimbra.
Além disso, esteve ligado a várias expressões culturais da cidade. Foi ensaiador de grupos como o Rancho do Pátio da Inquisição e o Rancho das Tricanas de Coimbra, ambos sediados na Baixa, e colaborou com a Tuna Académica da Universidade de Coimbra em 1908. Participou ativamente em serenatas, tanto as tradicionais como as chamadas futricas e fluviais, sendo um entusiasta da vida boémia coimbrã.
A sua versatilidade estendia-se ao teatro. Zé Trego foi ator amador, encenador e dinamizador de iniciativas culturais. Representava papéis cómicos, dramáticos e trágicos, participando em operetas e espetáculos populares.
Fundou também o “Recreativo da Couraça de Lisboa”, um clube que marcou durante anos a vida cultural local. Esteve ainda ligado ao grupo Salsichon, sediado na Rua da Sofia, e a outras iniciativas que animavam a cidade.
Uma vida atravessada pela história
A longevidade de Zé Trego fez dele testemunha direta de momentos marcantes da história portuguesa. Tinha 27 anos aquando da implantação da República, em 1910, e 31 quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Viveu o golpe militar de 28 de maio de 1926 e enfrentou as dificuldades da Segunda Guerra Mundial, com os seus racionamentos e privações.
Ao longo de todas estas mudanças, manteve-se fiel à sua personalidade irreverente, assumidamente republicana e anticlerical, sem nunca abandonar a sua ligação à arte e à cultura.
A sua influência estendeu-se também à família. Os seus filhos seguiram, de diferentes formas, caminhos ligados à música e à cultura: José de Sousa Lopes, Rui Sousa Lopes e Maria José Fonseca Lopes Quintas destacaram-se como músicos, cantores e atriz amadora.
Em 1948, a demolição do quarteirão onde se situava a sua barbearia marcou o fim físico de um espaço emblemático. No entanto, o espírito daquele local continuou vivo na memória coletiva da cidade.
Uma figura eterna da Coimbra boémia
Zé Trego permanece como uma das figuras mais emblemáticas da Coimbra popular e académica. Mais do que barbeiro, foi um verdadeiro agente cultural, um ponto de ligação entre diferentes gerações e expressões artísticas.
A sua barbearia foi escola, palco e salão de convívio. A sua vida, marcada pela simplicidade e pela criatividade, espelha uma época em que a cultura nascia nos lugares mais improváveis, entre tesouras, guitarras e conversas intermináveis.
Hoje, a placa evocativa na Alta de Coimbra recorda não apenas um homem, mas um modo de viver e de criar que marcou profundamente a identidade cultural da cidade.
DESTAQUE
Sobre ele, Zé Trego, escreveu em 2003 Gonçalo dos Reis Torgal, no livro “Coimbra, Boémia da Saudade”: Coimbra deixou passar o centenário do seu nascimento. Já cá não estarei mas espero que em 2026, não deixem passar o cinquentenário da sua morte. Então isto não é a capital da Cultura?”