SAÚDE / Um grupo de psicólogas clínicas dos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra acaba de lançar um livro que ajuda a população a lidar com a dor do outro. “Estar Presente – Guia Prático para Familiares e Amigos de Pessoas em Sofrimento Emocional” pretende ser um “ombro amigo” para apoiar quem sofre.
O sofrimento emocional é uma realidade que faz parte da vida humana. Em algum momento, todas as pessoas vão ter de lidar com a dor, seja a sua ou a de alguém próximo. No entanto, estar perante um familiar ou amigo em sofrimento pode ser um verdadeiro desafio. A vontade de apoiar existe, mas nem sempre é fácil saber o que fazer. O “Estar Presente – Guia Prático para Familiares e Amigos de Pessoas em Sofrimento Emocional” promete ajudar nesse sentido.
Com chancela da editora PACTOR, o livro foi desenvolvido pela psicóloga clínica Maria João Martins, em conjunto com as colegas dos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra, Inês Eulálio, Alícia Marques, Andreia Ferreira, Beatriz Carvalhinho, Joana Martins, Sandra Xavier e Sofia Caetano. Chegou, no final do mês passado, às livrarias com o objetivo de fornecer ferramentas práticas para apoiar os outros de forma eficaz e equilibrada.
“Este livro surge como tentativa de dar resposta a essa necessidade que, tantas vezes, sentimos de ajudar quem está a sofrer. É uma obra dirigida à população em geral”, conta a psicóloga e co-autora do livro, Inês Eulálio, em declarações ao “O Despertar”.
Isto porque, apesar das autoras, enquanto profissionais da área da psicologia, assumirem um papel importante no aliviar desse sofrimento, “não somos nós que estamos ali na linha da frente, a apoiar as pessoas que acompanhamos. Na maior parte das vezes são os familiares, os amigos e os colegas de trabalho ou da faculdade quem está a lidar directamente com a pessoa no momento em que ela está a passar pelas situações difíceis”, acrescenta.
Compreender, comunicar, cuidar e conectar
Ao longo de toda a obra, os leitores vão deparar-se com uma série de estratégias que podem utilizar para auxiliar quem mais precisa. A estas, juntam-se ainda várias informações sobre o funcionamento da mente humana. “Todos esses conteúdos são baseados em teorias cientificamente validadas por todo o mundo. Por isso, achamos que este livro faz sentido e pode ser útil para muita gente”, sublinha Inês Eulálio.
Compaixão e autocompaixão, regulação emocional, tristeza e depressão são apenas alguns dos temas abordados no “Estar Presente”. O guia prático é, por isso, apresentado sob uma lógica de quatro partes: compreender, comunicar, cuidar e conectar. No primeiro caso, – compreender, é feito um enquadramento sobre a mente humana.
No segundo, – comunicar -, são dadas dicas acerca da melhor forma de estar perante a pessoa que sofre. “Não só ao nível do que devemos ou não dizer, mas também da postura corporal que devemos adotar. Por exemplo, perceber quando é que faz sentido tocar na pessoa ou dar-lhe um abraço”, explica a psicóloga.
Na terceira parte, – cuidar -, o leitor tem a oportunidade de se informar sobre diversas problemáticas, como a depressão, ansiedade e dificuldades na gestão da raiva, mas não só. “Também falamos sobre três problemáticas um pouco mais patológicas que têm a ver com o consumo de substâncias, com a intenção de suicídio e com os sintomas psicóticos”, revela.
Por fim, numa última parte, – conectar -, a obra aborda a questão da compaixão e da autocompaixão. Isto é, “falamos da importância de estarmos inseridos numa rede e de não estarmos sozinhos”, refere Inês Eulálio. A responsável salienta, assim, que “é importante que nós próprios também possamos ter a nossa rede compassiva, não só contactando com profissionais de saúde sempre que necessário, mas também com os nossos amigos e familiares”.
Abrir horizontes para tema da saúde mental
Redigido por um grupo de psicólogas clínicas, o livro distingue-se por se basear em factos científicos. Inês Eulálio não tem dúvidas de que ter sido escrito em co-autoria acrescentou valor ao guia prático, sublinhando que este “cumpre muito bem o papel de trazer informação que pode ajudar as pessoas no imediato, mas também a longo prazo, na medida em que incentiva os leitores a procurarem saber mais”.
Uma mais-valia, sobretudo, no que diz respeito à valorização da saúde mental. “Eu acho que há cada vez mais pessoas despertas para esta temática, no entanto, acredito que a leitura do livro acaba por dar mais ferramentas e abrir ainda mais o horizonte do leitor para este tema da saúde mental”, admite.
Uma ação que confessa ser importante, já que, apesar de reconhecer que as novas gerações estão cada vez mais familiarizadas com o tema, também há casos em que os utentes se mostram reticentes em relação ao acompanhamento psicológico. “Às vezes, têm muita esta questão de: ‘a minha mãe/pai disse-me que não preciso disto. Isto não é para mim, é para quem está muito mal’. E, portanto, é óbvio para nós, psicólogos, que ainda existem algumas crenças de que a saúde mental é secundária em relação à saúde física”, lamenta.
Inês Eulálio defende o combate desse estigma através da literacia e do incentivo à população a descobrir mais sobre o universo da mente humana. “Estar Presente – Guia Prático para Familiares e Amigos de Pessoas em Sofrimento Emocional” assume, em parte, esse papel. “Penso que esta obra é pertinente hoje, será pertinente daqui a 10 anos e teria sido pertinente há 30 anos”, confessa, frisando que “a espécie humana sofre desde os seus primórdios e acho que nenhum de nós pode dizer que nunca sentiu dificuldade em ajudar outras pessoas ou a nós mesmos em períodos difíceis”.
É, por isso, fundamental compreender que saber cuidar é tão ou mais importante do que querer ajudar. “É muito fácil sentirmos que queremos ajudar. O mais difícil é sabermos como. Portanto, precisamos de ter movimentos mais conscientes para ir além da vontade de ajudar e para aprendermos como pôr esse auxílio em prática da forma mais útil possível”, afirma a psicóloga.
Nesse sentido, o título escolhido para a obra não podia ser mais explícito: “Estar Presente”. Um estar presente que implica “estarmos ali de forma plena para o outro, 100% dispostos a cuidar e ajudar, obviamente mantendo-nos sempre presentes também para as nossas próprias necessidades e dificuldades”, conclui.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 27/03/2026]