22 de Maio de 2026 | Coimbra
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Martinho

CAUSALIDADE OU LIVRE-ARBÍTRIO

20 de Março 2026

Em jeito de sinopse, porque é matéria que especificamente nos transcende, procuremos distinguir entre Determinismo e Livre-Arbítrio. Aquela doutrina parte da afirmação de que o futuro é único e pré-determinado, pois nenhum acontecimento poderia ter ocorrido de maneira diferente, dado que subordina a vontade humana, porque tudo que acontece tem uma causa, uma causa absoluta (bebemos água porque temos sede).

Aliás, Espinosa, um dos maiores filósofos, afirmou que o homem está submetido à ordem natural e Leibniz acrescentou que muitas vezes as causas dos atos são desconhecidas pelos homens e que isso provoca a ilusão da liberdade absoluta. Analisemos, por exemplo, por que é que há homens vítimas de doenças respiratórias e pulmonares, alcoólicas, assassinas, drogas intoxicantes, traumáticas e congénitas, respetivamente? Elas pressupõem o vício reiterado do tabagismo¸ do consumo excessivo de bebidas alcoólicas; de hereditariedade, de contusões, doenças mentais, etc.

O livre-arbítrio, por seu turno, nega a determinação causal absoluta dos acontecimentos, defendendo que nem todos os eventos naturais e humanos são estritamente previsíveis ou causados por leis prévias; associa-se à arbitrariedade, e à existência de múltiplas possibilidades futuras. Tudo terá as suas causas, mas a vontade do homem não está submetido a elas. Elas constituem uma exceção única e estranha e conduzem diretamente à religião, que nada explica… As causas passam-lhes ao lado, como algo estranho à sua existência e, nesse sentido não aceitam o caos, negando o princípio organizador do mitológico “demiurgo”, autor e gerador de tudo quanto existe.

Admitimos que a descrença nessa causalidade, resulta da insensibilidade, ou não causalidade, mas na contingência da necessidade de se submeter a um internamento hospitalar grave, com grande sofrimento, sujeito à aplicação de tratamentos violentos e prolongados, por vezes com pouco ou nenhum sucesso, avalie tais situações para o efeito de mera arbitrariedade Experimente, como resultado dessa visita, dar-se ao incómodo de tentar visitar algumas das diversas unidades hospitalares, gerais e de especialidades, por certo que confirmará tudo isso que acabámos de descrever e não deixará de confrontar aquelas tristes enfermidades com as suas crenças e, por certo, pairará na dúvida se algo de superior comandará ou não o nosso destino?

Servindo-nos, a propósito, das várias vicissitudes por que passámos, que nos sujeitámos a vários internamentos e intervenções cirúrgicas, umas graves e outras menos graves, umas por negligência e outras por ironia do destino, mas com muito sofrimento, e que durante essa desdita fomos constrangidos a revivê-las, alguém ficará circunspecto de como, racionalmente, é concebível negar a evidência, para afirmar que tudo poderá ter as suas causas mas o homem a elas não está submetido?

Guardamos para o desfecho do tema central deste ensaio o ensejo de tentarmos fazer refletir os defensores da teoria da arbitrariedade com uma visita conjunta com os seus filhos, a partir da adolescência, às várias unidades hospitalares, gerais e de especialidades para imaginarem o nosso sofrimento, aquilatarem o daquelas vítimas e especularem a origem eficiente – se foi fruto do livre-arbítrio ou da causalidade – a fim de ponderarem qual a atitude a tomar perante o dilema entre livre-arbítrio – conceito que refere a crença de que existe liberdade da vontade, segundo a qual o ser humano é livre no seu agir, tem opções genuínas e toma decisões livres em função dessas opções – e o determinismo, conceito que refere a crença de que o que acontece, dadas as condições antecedentes, tem necessariamente que acontecer. Na nossa perspetiva, ambos os conceitos se completam e se imbricam no devir da natureza humana.


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