25 de Maio de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Considerações acerca da alma

6 de Março 2026

Será que a alma existe? E se existe, qual a sua constituição e onde se localiza no Homem? E só o Homem possui alma? Eis algumas das questões que se colocam em termos religiosos e filosóficos. As religiões concebem o Homem como dotado de alma, a dimensão incorpórea que prolongará a vida para além da morte numa eternidade junto do divino criador. Ao contrário da ideia de muitos, a “alma” não se identifica com “espírito”. Este último termo, aplica-se à energia vital e imaterial que se manifesta no corpo físico e que os filósofos designavam por “mente” (consciência), fixando assim um dualismo antropológico mente-corpo. A alma é provavelmente o ponto do caráter, bom ou mau, e que necessita de aperfeiçoamento ao longo da vida terrena e define os humanos como seres éticos. A glândula pineal é uma glândula endócrina que se localiza no cérebro dos vertebrados e que modula os padrões do sono nos ciclos circadianos. René Descartes, filósofo francês do século XVII e estudioso de anatomia e fisiologia, defendeu que essa glândula é um órgão com funções transcendentes, enquanto “principal sede da alma” e ponto de união substancial entre o corpo e a mente. Na antiguidade, filósofos pagãos como Pitágoras, Sócrates ou Platão, acreditavam que o Homem possui uma alma que é imortal e imperecível, libertando-se após a morte do corpo e, mantendo-se durante certo tempo no império dos mortos, transmigra para outros corpos, humanos ou de outros animais e até vegetais (crença transposta do Egito para a Grécia por Pitágoras), até que transcorra o tempo da sua purificação por meio de um comportamento virtuoso durante a vida terrena e material. O corpo é unicamente o invólucro ou cárcere temporário da alma durante a vida terrena. A teoria platónica da “metempsicose” é a defesa da existência, imortalidade e transmigração das almas e fundamenta uma outra teoria, a da “anamnese”, segundo a qual todo o conhecimento é recordação das ideias que interiormente o Homem já possui, por a alma, liberta do corpo, ter vagueado pelo mundo das essências, das Ideias, que constituem o verdadeiro e real conhecimento. Para Platão, a alma seria substância simples com uma existência por si mesma, cuja realidade é independente de outras substâncias, nomeadamente do corpo (res extensa). Para os crentes cristãos, a alma é o centro da união com Deus que criou o Homem “à Sua imagem e semelhança”, o centro da fé, que através da experiência religiosa nos eleva à união com a transcendência e nos permite vivências logicamente complexas e inexplicáveis racionalmente. Os ateus, pelo contrário e influenciados por estudos científicos contemporâneos, não acreditam na existência de uma alma individual e indivisível como dimensão metafísica do ser humano, identificando-a antes com a mente, cuja existência se localiza ao nível físico do cérebro. O neurocientista português António Damásio realça nas suas investigações a relação existente no Homem entre a mente (racionalidade e bom senso) e as emoções (sensibilidade interna), determinantes do comportamento humano, menosprezando e denegando a existência da alma no sentido tradicional do termo, filosófico e religioso. Qualquer resposta à questão sobre a existência da alma é racionalmente inconclusiva e considerações acerca da sua constituição são sempre inverosímeis, visto que não se pode sujeitar a alma, se existe, a observações experimentais, estudando-a laboratorialmente. Atualmente, por via do progresso dos conhecimentos científicos e de uma mentalidade materialista que se enraizou nas nossas sociedades, cada vez é mais regular e comum o ateísmo e consequente descrença na existência da alma, e só nas crenças e meios religiosos se persiste na ideia da sua existência. Apesar de tudo, lembremos a reflexão do escritor francês Victor Hugo de que “há pensamentos que são orações. Há momentos nos quais seja qual for a posição do corpo, a alma está de joelhos”. Também Jesus Cristo pregou: “De que serve ao Homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?” Este é um tema que exige profunda e cuidada reflexão (e fé), de que depende o sentido que atribuímos à vida e que determina a nossa posição perante o mundo e Deus.


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