Na antiga zona industrial de Coimbra, onde durante décadas o fumo dos fornos e o som repetitivo do trabalho marcavam o ritmo dos dias, a LUFAPO permanece como um lugar onde o tempo não se perdeu. Entre a memória operária e a criação artística contemporânea, a antiga fábrica de cerâmica continua a contar histórias — feitas de barro, fogo e esforço humano, mas também de aprendizagem, partilha e resistência.
Fundada nos anos 40 do século XX, a LUFAPO foi durante muito tempo um dos rostos mais visíveis da indústria cerâmica coimbrã. A sua presença moldou profundamente a paisagem urbana e social da zona onde se implantou. Mais do que um espaço de produção, a fábrica tornou-se um eixo estruturante da vida quotidiana de centenas de pessoas.
Lufapo: o trabalho duro das mulheres
A história da LUFAPO confunde-se com a das pessoas que ali trabalharam. Muitas vieram do campo, de freguesias próximas como São João do Campo, procurando na indústria uma alternativa à dureza do trabalho agrícola. Para várias gerações, a fábrica representou uma possibilidade de subsistência num contexto de escassez.
Fernanda Pimentel, hoje com 80 anos, guarda uma ligação profunda à LUFAPO. A avó já ali trabalhava e a mãe entrou ainda criança, com apenas oito anos, sem saber ler nem escrever. Como tantas mulheres da época, começou nos trabalhos mais duros.
O primeiro contacto com a fábrica foi marcado pelo esforço físico extremo. A mãe de Fernanda acartava areia do rio velho para a LUFAPO, transportando-a à cabeça em taleigas de madeira. Era um trabalho pesado, diário e pouco valorizado, revelador da dureza das condições de vida e da entrada precoce no mundo laboral.
Com o tempo, passou para a secção de pintura, onde aprendeu a pintar pratos à mão. Apesar de analfabeta, adquiriu um saber técnico e artístico através da prática, da observação e da transmissão direta entre colegas. A cerâmica ensinava-se com as mãos, com o olhar e com o tempo.
Trabalho, assistência e aprendizagem num tempo de carências
Num período anterior ao 25 de Abril, marcado por profundas desigualdades sociais e ausência de assistência estatal, a fábrica disponibilizou um médico e criou uma escola interna, num contexto de elevado analfabetismo entre os trabalhadores.
Foi nessa escola que a mãe de Fernanda aprendeu a ler e a escrever. As aulas eram dadas pela Dona Isaurinha, residente no Bairro do Loreto. A conclusão da terceira classe, então obrigatória, representou uma conquista significativa para quem partia de uma situação de exclusão educativa.
A vida na LUFAPO não se limitava ao trabalho. As refeições eram momentos de convívio. Muitos levavam marmitas e iam aquecê-las nas lojas da zona, que funcionavam como espaços informais de partilha. Não existiam restaurantes como hoje.
A fábrica era também um centro de vida social. Havia um salão de bailes, um campo de futebol com equipa própria, um bairro para trabalhadores e uma linha de comboio junto à fábrica (foi esse o motivo de escolha da localização da fábrica), facilitando o transporte de matérias-primas e mercadorias.
Vidas marcadas pela resistência
As dificuldades faziam parte do quotidiano. Em períodos de cheias, algumas trabalhadoras percorriam longas distâncias a pé para chegarem à fábrica. A ausência não era uma opção. Estas deslocações revelam a dureza das condições de vida e a determinação de quem dependia daquele salário.
Com o tempo, a modernização de outras unidades fabris, com maquinaria mais avançada e melhores salários, fragilizou a LUFAPO. A atividade foi diminuindo até ao encerramento definitivo. O edifício ficou abandonado, suspenso no tempo, marcado pela ausência e pela memória.
Da ruína ao renascimento
Já no século XXI, a antiga LUFAPO conheceu um novo destino. A reabilitação do edifício assumiu o passado industrial como ponto de partida. Em 2022, o projeto Lufapo HUB, criado pelo CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, inaugurou o espaço como centro artístico dedicado à cerâmica contemporânea.
Onde antes se produziam objetos utilitários em série, produzem-se hoje obras únicas. As marcas do passado permanecem visíveis na arquitetura, criando um diálogo entre memória e criação.
É neste contexto que surge Paoletti Avellar, artista plástica brasileira com um percurso profundamente ligado à cerâmica. Natural do Espírito Santo, iniciou a sua formação nos anos 80, encontrando no barro o seu principal meio de expressão.
Licenciada e bacharel em artes visuais, construiu um percurso sólido como artista e professora. No Brasil, lecionou várias disciplinas artísticas, coordenou projetos educativos e dirigiu uma escola de arte, conciliando sempre a docência com a prática artística.
A cerâmica como memória da humanidade
A obra de Paoletti parte frequentemente da arqueologia, da pintura rupestre e dos povos originários. Para a artista, moldar a argila é um gesto ancestral, ligado ao início da própria arte. A cerâmica acompanha a humanidade desde a descoberta do fogo.
A ligação a Portugal tem raízes familiares. Neta de portugueses açorianos, da ilha do Corvo, começou a visitar Coimbra em 2018, aquando do doutoramento do filho. Em 2022, fixou-se definitivamente e descobriu a LUFAPO.
Recebida por Ana Carvalho, gestora do espaço, encontrou um projeto assente na colaboração entre artistas. Um exemplo desse espírito foi a criação do troféu do Prémio Mulher Empreendedora de Coimbra, desenvolvido coletivamente por três ceramistas, num processo de partilha de saberes.
Um futuro construído a partir do passado
As propostas desenvolvidas na LUFAPO são diversas. As aulas e oficinas combinam cerâmica, pintura, mosaico e outras técnicas, privilegiando abordagens livres. O essencial é o processo, o tempo partilhado e o encontro humano.
Trabalhar a cerâmica implica uma relação direta com os quatro elementos da natureza: terra, água, ar e fogo. Estes processos exigem tempo e atenção. Num mundo acelerado, esta lentidão ganha um novo significado.
A LUFAPO continua a crescer. Novas oficinas, como a marcenaria, alargam o diálogo entre materiais e práticas artísticas. O passado industrial não é um peso, mas um ponto de partida.
Num edifício que foi símbolo de produção industrial e de vidas marcadas pelo trabalho duro, a cerâmica voltou a ser central — como gesto humano, ancestral e contemporâneo. Entre memória e criação, a LUFAPO permanece como um espaço onde o passado continua a ser moldado no presente.
Ana Rajado
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 30/1/2026]