Numa aldeia plantada num vale verdejante, rodeada de barrocos altaneiros, tive o enorme privilégio, enquanto «miúdo», de estar bem próximo de múltiplos animais surpreendentes. No entanto, nenhum emoldurou tanto as minhas emoções como a burra dos meus avós.
Logo que me via vinha ao meu encontro para que lhe fizesse festas no focinho e lhe enfiasse na boca uma maçã. Punha-se a jeito para que eu subisse para o seu dorso e levava-me, mansamente e sem pressas, por essas veredas além. Se eu estreitasse a corda que servia de rédia parava de imediato. Eu descia, ia fazer o que era necessário, ela esperava pacientemente,: eu subia e logo continuava a andar. Da Tapada da Ribeira para casa e vice-versa já sabia o caminho de tanto o ter repetido. Fazia o trajecto sozinha, caso fosse necessário. Era meiga. Trabalhava muito, esta minha burra amiga. Lavrava, transportava grandes pesos durante distâncias longas, puxava a água da nora durante horas e horas com os olhos vendados e sempre em círculo. Comigo passeava e via-se pelo comportamento que era feliz nesse convívio.
Um dia percorríamos nós, lentamente, um dos caminhos periféricos da aldeia, eis quando sai duma propriedade junto ao caminho, uma vaca, por acaso, bem corpulenta e de cornos alongados que começa a correr atrás da minha burra. Esta, em defesa minha e dela, começou a cavalgar e dava grandes coices para que o inimigo não lhe desse uma marrada. Neste frémito contexto, desequilibrei-me e passei por cima de um muro que vedava uma propriedades do meu avo, à beira desse trilho. Foi um trambolhão que me deixou cheio de arranhões e de marcas negras e a manquejar de uma perna. A burra fugiu e conseguiu iludir o seu adversário. Quando viu o perigo passado, voltou e ficou parada junto ao lugar onde eu havia caído. O avô, que andava perto e a caminho, achou estranho e olhou para a parte inferior do muro. Lá estava eu todo amachucado.
Estive ainda uns dias com bastantes dores e sem poder andar, metido em casa. Quando voltei a sair, fui ver a minha burra mas não tive coragem de a montar. Vi que ela ficou triste.
Desde esse dia nunca mais aparelhei em burros ou cavalos. E se o fiz, foi com muita relutância e e sempre em pânico.
Burra amamentando o filho
A minha burrinha, era muito sociável, muito atenta e cautelosa; evitava perigos, e, ao contrário da sua fama de ser teimosa, era um animal muito obediente e calmo.
Os ancestrais selvagens da minha burra foram domesticados por volta de 5000 a.C., praticamente ao mesmo tempo que os cavalos, e, desde então, foram, tal como a minha, utilizados pelos homens como animais de carga e montaria.
Dada a importância que teve para o homem ao longo dos séculos, e a maledicência, ligado ao nome, a que esteve associado, este animal não tem sido esquecido pelas artes. Veja-se, por exemplo, o Monumento Cervantes na Praça de Espanha em Madrid, representando Sancho Pança e o seu asno
O convívio com a espécie humana acarretou – lhe um grande número de referências culturais na literatura e nos mitos e ritos populares.
As Fábulas de Esopo usam a figura do burrinho para representar os humildes.
Foi por muito tempo o símbolo da ignorância, e continua a ser, como em Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare.
Pinóquio é um exemplo de fábula, onde um menino mau é transformado em burro.