Li num diário da cidade de Coimbra que vai ser exibido um filme Salatinas. E ainda bem… Um filme que quer levar aos cinemas, segundo os seus autores, as memórias e também as mágoas de quem sofreu na pele a destruição da alta da cidade, para a transformar na cidade universitária que hoje conhecemos. Rafael Vieira, Filipa Queiroz e Tiago Cerveira são os mentores deste filme, ao qual se junta Gonçalo Parreirão, responsável pela banda sonora.
Afinal o que era ser Salatina? A primeira vez que ouvi falar nesta palavra, era muito pequeno. Quem me proporcionou esse conhecimento serôdio, foi numa grande discussão ente o meu tio António e o meu primo José Brás, ambos estudantes de Coimbra, um de Medicina, outro de Direito. Os dois esgrimiam sobre parte da população de Coimbra, os da Alta – Baixa e os da Alta – Alta, como eles diziam. Aos primeiros chamavam futrícas, aos segundos Salatinas.
Esta altercação acesa, e quase a chegar a vias de facto, estava relacionada com a construção da nova cidade universitária. O meu tio era contra, o meu primo era a favor. Mais tarde vim a saber que meu tio era um opositor ao regime de Salazar, logo contra a demolição da Alta-Alta.
Porque era contra tal propósito o meu tio? Vejamos então.
Ocorreu um quase terramoto nessa zona da cidade: derrube de casas, colégios e igrejas, o arrasamento de quarteirões inteiros a partir de Abril de 1943, obrigando à saída constrangida de centenas de famílias. Um historial de desenraizamento obrigatório para muitas pessoas. Enfim, a perda de um chão e a extorsão da identidade a um lugar.
Construíram-se bairros para albergar estas inúmeras famílias, como o de Celas, o da Fonte do Castanheiro e o Marechal Carmona, que se viria a apelidar, posteriormente, de Norton de Matos. Foram arquitectados e construídos apressadamente e sem grande primor a nível qualitativo. Eram bairros sociais, tal qual o bairro Salazar, na Guarda, que bem conheci. Foram erguidos por volta de 1946, em zonas ermas afastadas da cidade, como os de Celas e Fonte do Castanheiro, este com quase uma centena de casas embutidas na encosta do Vale da Arregaça. São os bairros sociais mais antigos de Coimbra, onde ainda permanecem tradições e memórias de valor incomensurável que não se podem perder.
Para tornar o acontecimento ainda mais discriminatório, evidencie-se que nos de Celas e Fonte do Castanheiro foram alojados os salatinas mais carenciados. Para o Norton de Matos, cujas casas eram melhor estruturadas, os de maiores ensejos de vida. Seja como for, foi um desmedido trauma, nalguns casos de dimensões incalculáveis.
Quando vim para Coimbra estudar, fui muitas vezes aos bailes e arraiais do Bairro de Celas, sempre bem recebido. No Bairro Norton de Matos, tive vários amigos e colegas e visitei as suas casas.
Não se deixem morrer as estórias e memórias destes homens e mulheres. Fazem parte, por direito, da história mais nobre de Coimbra.
Tal como o meu tio, digo bem alto…Vivam os Salatinas.