Hoje é Dia de Reis.
Vou tentar fazer uma viagem ao fantástico, guiada pelas crenças e narrativas orais que fazem parte da cultura e identidade de um povo predominantemente campesino e rural. Entro, amedrontadamente, no conceito de mitologia popular, como sistema construído pela memória colectiva na base de antigas tradições cristãs e pagãs. É o caso das Fogueiras de Natal.
Com o aproximar da festa do Natal, uma grande parte das populações das aldeias e vilas da Raia, de Trás-os-Montes às Beiras, envolvia-se numa milenar festa comunitária, tendo como centro uma fogueira.
O Madeiro, Fogueiras do Natal ou Fogueiras do Galo, eram grandes queimas que se acendiam no centro das aldeias, na praça principal ou no adro da igreja, quase sempre, na véspera de Natal. A tradição tem origem nos cultos pagãos, na celebração do solstício de Inverno, em que se acendiam enormes fogueiras ao ar livre.
Hoje estas manifestações rareiam. Sobejará muito provavelmente aos poderes autárquicos, terem de vir a apossar-se, como acontece já em alguns casos, da manutenção destas seculares tradições locais, quase em extinção.
Hoje é Dia de Reis, como acima afirmei.
Recordo-me, e ainda era pequeno, de ser o dia da extinção da grande fogueira de Natal (para tristeza minha). Aquela fogueira que crispava chama e aquecia todos os que dela se aproximavam findava.
Na linda aldeia beirã, a sempre minha Amoreiras do Mondego, encarquilhada entre barrocais, cultivava-se o hábito de a fogueira de Natal estar acesa entre o dia da Consoada e o Dia de Reis. Por isso, perecia.
Por isso me lembrou hoje tanto!…
Os jovens da aldeia davam corpo a um dos rituais mais remotos de Amoreiras do Mondego, permitindo transportar, para fora da intimidade do lar, o hábito familiar da reunião à volta da lareira. Retornava-se aos tempos em que o povo aguardava o nascimento do Menino Jesus, em conjunto, a volta da grande fogueira.
Normalmente os rapazes organizavam-se na taberna. O taberneiro nessas noites da ida à lenha, estava sempre aberto para dar apoio com comida e bebida aos jovens. Fazia-se o transporte dos cepos em carros de bois puxados por eles próprios. Para que a fogueira se tornasse uma realidade, os rapazes combinavam a estratégia em segredo e era, quase sempre, pela madrugada que iam roubar pinheiros, azinheiras e outras árvores, com os carros que roubavam aos donos.
À meia-noite, durante a missa, era acesa a fogueira pelos rapazes, no adro da igreja, ou, algumas vezes, se bem me lembro, na designada Lameira. Árvores inteiras, amontoadas em enorme pilha começavam a arder, muito lentamente, ateadas por vides e giestas auxiliadoras da combustão.
Lançado o fogo, logo se elevavam guiadas pela brisa grandes labaredas de muitos metros de altura. Em volta, os jovens organizadores animavam o espaço, à medida que as chamas, mais e mais, se erguiam no céu. Davam pancadas nos madeiros ,para todos observarem, atónitos, miríades de ardentes faúlhas a voarem pelos ares, quais pepitas de ouro levadas de presente pelos Reis Magos ao Deus Menino.
Depois da missa, o povo aquecia-se em redor. Os poemas soltavam-se:
Em Belém, à meia-noite,
N´a noite de Natal,
Nasceu Jesus n´um presépio,
Maravilha sem igual.
Cantem, cantem os Anjos,
A Deus um hino;
Cantem, cantemos todos,
Ao Deus Menino.
[letra e música das Amoreiras do Mondego, autor desconhecido, in No Colo da Memória se Escreveu Amoreiras do Mondego, livro do autor do artigo].
Memórias inesquecíveis.