23 de Maio de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

António Inácio Nogueira

TESTEMUNHOS Sentir Coimbra, Viver Coimbra, Dizer Coimbra

26 de Janeiro 2024

 

Há dias apresentei, neste meu cantinho de escrita de O Despertar, um livro sobre Coimbra escrito pelo prestigiado estudioso e investigador Jorge de Alarcão. Hoje, vou falar de um outro, cujo autor é Nuno Rosmaninho, foi editado pela editora humus em 2020 e cujo titulo é Coimbra e o Imaginário [A Cidade Entre o Romantismo e o Estado Novo].

Poderão perguntar : porquê dois livros sobre Coimbra? Eu respondo:  vivemos numa sociedade que tem um sério problema com a memória, isto é, com a verdadeira memória, a memória profunda, incompatível com a vertigem das redes sociais, com a leitura em scroll, onde tudo flui continuamente e pouco, ou nada, permanece. O resultado disto é uma espécie de alzheimer colectivo e social, que torna mais fácil impingirem-nos noticias falsas, ou uma História falsa, ou um passado falso. O sindrome dos impertencentes [leia-se em Gueorgui Gospodinov, à conversa com José Mário Silva].

Estou convicto de que a grande maioria da actual população de Coimbra pouco sabe sobre a História da cidade onde nasceu, vive ou trabalha, e, atrevo-me a ir mais longe, porventura, muitos dos seus actuais dirigentes políticos também não a conhecem a contento.

Há cada vez mais pessoas que sentem não pertencer a nada do que vem escrito nestes livros. E isso conduz a um desligamento, QUAL DEIXA-ANDAR, a uma tremenda solidão. Se fosse conhecido este passado, muitas das políticas encetadas na e para a cidade (desde há muitos anos para cá), acaso tivessem sido outras, talvez não olhássemos a Coimbra de hoje a resvalar e a quedar-se, em múltiplos aspectos, abaixo das expectativas e realizações de várias outras cidades que a ultrapassaram em vários domínios.

A obra trata, com profundidade, o lirismo coimbrão e beócio, os estereótipos do seu imaginário, o imaginário tardo-romântico, o seu sortilégio, o seu imobilismo e o seu estatuto paradigmático. De entre muitos outros.

Uma quantidade significativa de escritores e poetas participam no tratamento destas demandas, dos muitos cito apenas alguns [ os outros que não me levem a mal]: Alberto Oliveira, António Nobre, Eça de Queirós, Miguel Torga, Luís Reis Torgal, Camilo Castelo Branco, José Maria Viqueira, Augusto de Castro, António Cabral, Fialho de Almeida, Simões de Castro, José Branquinho de Carvalho, Afonso Lopes Vieira, Pierre Hourcade, Miguel Unamuno, Leo Magnino, Afrânio Peixoto, Hipólito Raposo, José-Augusto França, Marcello Caetano. Os autores defendem teorias diferentes sobre Coimbra: uns são coimbristas, outros anticoimbristas. Ou seja, “Contra o elogio desmedido, um igualmente desmesurado apoucamento.”

A critica mais acutilante dos estereótipos de Coimbra encontra-se em 6 breves páginas de Miguel Torga, publicadas em 1950. Em 1943, o mesmo autor, expressou a vacuidade da cidade. É o poeta contra os lirismos que continuamente deturpam e fazem desvanecer a beleza autentica de Coimbra.

Fialho de Almeida fala-nos num estilo coimbrão, redundante e pedantesco, afirmando que tal facto se deve a uma espécie de hereditariedade mórbida. Até Marcello Caetano, quem diria, se revela anticoimbrista [na minha opinião] ao afirmar: Coimbra é a “capital intelectual da província Portuguesa com sucursais em todas as boticas aldeãs.”

Outros anticoimbristas são de muita agressividade em relação à urbe. Eis algumas frases exemplificativas: tradição parola, símbolo de conservadorismo, decrepitude e bolor. Almada de Negreiros chegou mesmo a referir-se aos palermas de  Coimbra. Há também quem diga que o bucolismo, tão exaltado no tardo-romantismo, aprisionou Coimbra numa ideia de tranquilidade, de tradição e, por fim, de imobilismo.

Os coimbristas também não se coibiram de tecer elogios à cidade: Coimbra solene e catedrática espiritual de Portugal, um papel preponderante na orientação do pensamento português, Coimbra paradigma do país, Coimbra reserva da identidade nacional, a verdadeira metrópole.

Por fim, Augusto de Castro deixa-nos esta mensagem elogiosa: Coimbra e a Universidade foram,-digam o que disserem, a pátria espiritual de Portugal.

Coimbra foi a cidade dos «futricas» e dos estudantes, cidade quase dividida. Uns e outros deram muito a Coimbra, à sua maneira, sob o ponto de vista cultural, económico, social e político.

Os estudantes fizeram de Coimbra a sua verdadeira terra. A Associação Académica de Coimbra era um alfobre de valores no campo cultural, desportivo, social e político. Os estudantes de Coimbra deram uma lição a Portugal com as suas lutas académicas de 1962 e 1969, contra o Estado Novo. Muitos destes jovens foram verdadeiros impulsionadores do 25 de Abril. Muitos Oficiais das Forças Armadas revoltosos, beberam das suas ideias para fermentarem a Revolução.

Coimbra não foi nem é tão má como alguns querem fazer crer. Nem tão boa como nos querem, supostamente, vender. Na realidade, houve muitos anos de imobilismo inconcebível no passado e nos tempos mais recentes. As políticas podiam ter sido bem melhores. Mais ágeis, mais multiplicadoras. Tinham evitado a estagnação de muitos anos. Agora tenta-se recuperar a todo o custo, aos solavancos e sem estratégia.

Se o passado tivesse sido melhor conhecido e reflectido, talvez o presente fosse mais risonho e mais além. E o futuro? Não posso adivinhar… e já por cá não andarei para ver. O que sei é que perdemos velocidade e ambição.


  • Diretor: Lino Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM