Há dias apresentei, neste meu cantinho de escrita de O Despertar, um livro sobre Coimbra escrito pelo prestigiado estudioso e investigador Jorge de Alarcão. Hoje, vou falar de um outro, cujo autor é Nuno Rosmaninho, foi editado pela editora humus em 2020 e cujo titulo é Coimbra e o Imaginário [A Cidade Entre o Romantismo e o Estado Novo].
Poderão perguntar : porquê dois livros sobre Coimbra? Eu respondo: vivemos numa sociedade que tem um sério problema com a memória, isto é, com a verdadeira memória, a memória profunda, incompatível com a vertigem das redes sociais, com a leitura em scroll, onde tudo flui continuamente e pouco, ou nada, permanece. O resultado disto é uma espécie de alzheimer colectivo e social, que torna mais fácil impingirem-nos noticias falsas, ou uma História falsa, ou um passado falso. O sindrome dos impertencentes [leia-se em Gueorgui Gospodinov, à conversa com José Mário Silva].
Estou convicto de que a grande maioria da actual população de Coimbra pouco sabe sobre a História da cidade onde nasceu, vive ou trabalha, e, atrevo-me a ir mais longe, porventura, muitos dos seus actuais dirigentes políticos também não a conhecem a contento.
Há cada vez mais pessoas que sentem não pertencer a nada do que vem escrito nestes livros. E isso conduz a um desligamento, QUAL DEIXA-ANDAR, a uma tremenda solidão. Se fosse conhecido este passado, muitas das políticas encetadas na e para a cidade (desde há muitos anos para cá), acaso tivessem sido outras, talvez não olhássemos a Coimbra de hoje a resvalar e a quedar-se, em múltiplos aspectos, abaixo das expectativas e realizações de várias outras cidades que a ultrapassaram em vários domínios.
A obra trata, com profundidade, o lirismo coimbrão e beócio, os estereótipos do seu imaginário, o imaginário tardo-romântico, o seu sortilégio, o seu imobilismo e o seu estatuto paradigmático. De entre muitos outros.
A critica mais acutilante dos estereótipos de Coimbra encontra-se em 6 breves páginas de Miguel Torga, publicadas em 1950. Em 1943, o mesmo autor, expressou a vacuidade da cidade. É o poeta contra os lirismos que continuamente deturpam e fazem desvanecer a beleza autentica de Coimbra.
Fialho de Almeida fala-nos num estilo coimbrão, redundante e pedantesco, afirmando que tal facto se deve a uma espécie de hereditariedade mórbida. Até Marcello Caetano, quem diria, se revela anticoimbrista [na minha opinião] ao afirmar: Coimbra é a “capital intelectual da província Portuguesa com sucursais em todas as boticas aldeãs.”
Outros anticoimbristas são de muita agressividade em relação à urbe. Eis algumas frases exemplificativas: tradição parola, símbolo de conservadorismo, decrepitude e bolor. Almada de Negreiros chegou mesmo a referir-se aos palermas de Coimbra. Há também quem diga que o bucolismo, tão exaltado no tardo-romantismo, aprisionou Coimbra numa ideia de tranquilidade, de tradição e, por fim, de imobilismo.
Os coimbristas também não se coibiram de tecer elogios à cidade: Coimbra solene e catedrática espiritual de Portugal, um papel preponderante na orientação do pensamento português, Coimbra paradigma do país, Coimbra reserva da identidade nacional, a verdadeira metrópole.
Por fim, Augusto de Castro deixa-nos esta mensagem elogiosa: Coimbra e a Universidade foram,-digam o que disserem, a pátria espiritual de Portugal.
Coimbra foi a cidade dos «futricas» e dos estudantes, cidade quase dividida. Uns e outros deram muito a Coimbra, à sua maneira, sob o ponto de vista cultural, económico, social e político.
Os estudantes fizeram de Coimbra a sua verdadeira terra. A Associação Académica de Coimbra era um alfobre de valores no campo cultural, desportivo, social e político. Os estudantes de Coimbra deram uma lição a Portugal com as suas lutas académicas de 1962 e 1969, contra o Estado Novo. Muitos destes jovens foram verdadeiros impulsionadores do 25 de Abril. Muitos Oficiais das Forças Armadas revoltosos, beberam das suas ideias para fermentarem a Revolução.
Coimbra não foi nem é tão má como alguns querem fazer crer. Nem tão boa como nos querem, supostamente, vender. Na realidade, houve muitos anos de imobilismo inconcebível no passado e nos tempos mais recentes. As políticas podiam ter sido bem melhores. Mais ágeis, mais multiplicadoras. Tinham evitado a estagnação de muitos anos. Agora tenta-se recuperar a todo o custo, aos solavancos e sem estratégia.
Se o passado tivesse sido melhor conhecido e reflectido, talvez o presente fosse mais risonho e mais além. E o futuro? Não posso adivinhar… e já por cá não andarei para ver. O que sei é que perdemos velocidade e ambição.