9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Viajante Sem Tempo ?

31 de Outubro 2025

Sabem o que é uma endocardite? Pois é…Estive internado no hospital três meses e tive oportunidade de ouvir médicos e enfermeiros falar sobre a doença, sobre a minha doença (muito preocupados), o que me permitiu aprender alguma coisa sobre ela

Endocardite era o nome que todos eles davam à inflamação das estruturas internas do coração, principalmente das válvulas cardíacas. Se o agente infeccioso fosse uma bactéria, como era o meu caso, o nome mais corrente era a designação de endocardite bacteriana.

Esta doença, muito problemática para os meus 82 anos, dizia-me uma médica, aparece, usualmente, quando bactérias circulam na corrente sanguínea e acabam por se hospedar numa das válvulas cardíacas. O «bicharoco», em apreço, é capaz de destruir essa válvula, consequentemente, impedir a normal actividade do coração.

A endocardite – ouvi também eu dizer – pode ocorrer em indivíduos que possuam válvulas cardíacas artificiais, tal era o meu caso, pois havia sido operado há cerca de dois anos à válvula mitral.

Todo o paciente com uma válvula cardíaca artificial está sob maior risco de desenvolver endocardite. As bactérias têm maior facilidade em aderir a produtos artificiais do que às válvulas genuínas. O risco é consideravelmente maior no primeiro ano, após a troca das válvulas. No meu caso, pouco mais passou

Os sintomas mais comuns da endocardite, fiquei eu a saber, são febre e calafrios, falta de ar, cansaço, perda do apetite, dores pelo corpo, suores nocturnos, alguma dificuldade em estar deitado e aparecimento de edemas nas pernas. Esta situação, complexa, senti-a eu, no dia em que recorri à Urgência do Hospital da Luz, onde após análises e exames me foi proposto internamento. A situação era grave.

Fizeram-me um tratamento com antibióticos, quase sempre, por via venosa durante três meses de internamento. Uma tragédia.

Dada a gravidade da minha situação, destruição da válvula cardíaca pela infecção, uma cirurgia de troca valvular foi necessária, com implantação de uma válvula artificial.

Durante o tempo que permaneci nos Hospitais (privado e público), estive em vários departamentos de sua pertença, – foi um rodopio permanente. Do Hospital da Luz entrei, por transferência directa, na Unidade Local de Saúde de Coimbra. Aí fui colocado na Cardiologia B; após uma reduzida estada, fui conduzido para a Cardiologia A, onde a permanência foi longa, fazendo um tratamento contínuo com antibióticos.

De seguida fui transferido para a Cirurgia Cardiotoráxica, onde percorri uma extensa jornada, inclusive uma operação ao coração para substituição da válvula mitral infectada pelas bactérias. Entretanto, os cuidados intensivos, intermédios e a enfermaria, fizeram parte do meu percurso.

Durante esta viagem sofredora de três meses, ocupei oito quartos diferentes, partilhando-os com vinte e seis outros pacientes. Tomei quatrocentos e trinta e quatro doses de antibiótico (não registei a volumetria de cada toma, nem tão pouco a marca e respectiva agressividade).

Conclui na Cirurgia Cardiotoráxica, o tempo previsto para a erradicação da enfermidade – se é que ela pode ser extirpada.

Conheci ao longo desta caminhada dezenas de médicos, enfermeiros e auxiliares que ajudaram, à sua maneira e função, a debelar esta doença tão prolongada.

O meu sofrimento deriva de um constrangimento: afinal, vim sem tempo.

Na verdade, sinto tudo o que se passou, tatuado na pele p’ró futuro que, auguro, não será longo.

A ALTA, foi o dia que mais ansiava, na certeza de que no meu caso o fim é o princípio. Melhor dizendo, vim sem tempo e parto com a nostalgia do tempo.

Escrevi um livro sobre tudo isto, que em breve será recebido, por todos os que quiseram saber de mim, do meu sofrimento, da minha angústia.

O título do livro diz tudo: Eu sou um Viajante no Tempo.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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