4 de Julho de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Ser “Pessoa”/ tornar-se “Pessoa”

3 de Julho 2026

O filósofo Immanuel Kant (1724-1804) distinguiu três dimensões que caraterizam os humanos: a dimensão da animalidade, enquanto seres vivos, da humanidade, enquanto seres vivos e racionais e a dimensão da pessoalidade, enquanto seres racionais e livres. É agindo livremente e de acordo com o princípio moral ou imperativo categórico que o Homem se torna Pessoa. Segundo este filósofo, o universo ganha sentido através da existência da Pessoa moral. E ser Pessoa é uma categoria fundamental na filosofia de Kant pois a Pessoa não deve ser instrumentalizada e manipulada em favor de benefícios ou interesses pessoais: a Pessoa é um fim em si mesma e não um meio para atingir qualquer fim. Sendo o Homem um animal racional, afirmou também o mesmo filósofo que o pensamento decorrente da nossa racionalidade é o que nos torna verdadeiramente humanos e nos distingue da animalidade de que também participamos. Cada um de nós, humanos, é um ser único e irrepetível, o que define a singularidade e originalidade de cada Pessoa. “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar” (Carlos Drummond de Andrade). Somos também, enquanto pessoas, uma unidade bio-psico-sócio-cultural, resultado da união entre fatores genéticos e fatores sócio-culturais e históricos. A autonomia também carateriza e define o “ser Pessoa”: o ser humano tem em si o princípio e a causa do seu agir, havendo uma causalidade livre e essa autonomia traduz-se na capacidade de se governar a si próprio e de se autodeterminar, com o poder de decidir por si mesmo agir ou não agir e de optar entre diversas alternativas. A interioridade também carateriza a “Pessoa” – todo o ser humano tem um espaço de intimidade, inacessível e incomunicável a outros e esse seu espaço íntimo coincide com a zona da consciência. Há igualmente a abertura aos outros, a relação com os outros, que devem ser tratados como um “tu-como-eu” ou “outro-eu” – deve existir o reconhecimento de que o outro é um valor e de que ele tem uma dignidade própria também enquanto Pessoa. Assim, o Eu perante o Outro não pode ser indiferente, como pode ser face aos objetos. Ser Pessoa implica empatia, reconhecendo no olhar do “outro” o reflexo da nossa própria vulnerabilidade e da nossa liberdade de escolha. A “Pessoa” é também projeto: não se nasce Pessoa, mas tornamo-nos Pessoas. Tornar-se Pessoa é uma das possibilidades humanas que cada um deve realizar por si e em si, a partir dos seus projetos de vida e das suas ações: o crescimento pessoal é um processo que se realiza e se vai concretizando ao longo de toda a nossa existência: não somos um objeto estático no mundo, pois tornar-se Pessoa implica um exercício diário de construção. À medida em que vamos existindo, com as nossas experiências e vivências, formamos a Pessoa que realmente somos porque “a existência precede a essência”: o Homem/Pessoa, não nasce com um propósito definido, um destino traçado ou uma natureza predeterminada, mas vai-se formando e definindo a partir das suas ações e escolhas (Jean-Paul Sartre: 1905-1980).  Ainda, segundo Kant, a Pessoa implica liberdade e racionalidade o que por sua vez é sinónimo de consciência dos seus atos e responsabilidade perante os outros. “O outro é também aquele perante o qual me sinto responsável”.  A Pessoa, enquanto ser humano, possui uma infinidade de possibilidades de realização pessoal de acordo com o sentido que atribui à sua vida e a orientação que lhe dá e em função das decisões que toma.  Ser ou tornar-se Pessoa é o que carateriza a essência humana e nos distingue de todos os outros seres vivos. É a forma mais radical de humanidade.  Portanto, ser Pessoa está ligado à nossa essência e evolução. Ser Pessoa, na visão de Sartre, é um ato de coragem. É aceitar que somos um projeto em aberto, um eterno vir-a-ser, inteiramente responsáveis por inventar o nosso próprio significado num universo que, por si só, não tem sentido.


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