Quem tem a ventura de viver desde a segunda quadra do século XX lembrar-se-á com saudade dos tempos em que os elétricos preenchiam as ruas deste burgo, onde os seus amantes se extasiavam a vê-los deslizar sobre carris, pintados das cores do brasão da cidade, sem borrões de tinta, cujo ruído fazia parte do seu quotidiano, oferecendo um certo fulgor, que animava os conimbricenses.
As rotas eram identificadas, inicialmente, pelas cores verde, vermelha, branca, amarela, azul e rosa, convertidas mais tarde em números: 1(Estação Nova – EN), Universidade e vv); 2(Praça 8 de Maio, EN e vv); 3(EN, Olivais, pelo Penedo da Saudade e vv); 4(EN, Celas, Olivais e v); 5(EN, Conchada, Cruz de Celas); 6(P. 8 de Maio, P. República, Arcos do Jardim, R. dos Combatentes, Calhabé, Rua do Brasil, Av. Navarro, Pr. 8 de Maio – linha circular operada em ambas as direções, etc.
Esta simbologia, rota e nº., estava colocada sobre o tejadilho do elétrico e, mais tarde, vinha embutida no seu frontispício. As primeiras carruagens comportavam 6 janelas em cada ala. Nos anos 30-40 foram introduzidos elétricos com maior lotação, já com 7 e 8 janelas (com dezenas de lugares sentados), para responder ao forte crescimento das carreiras urbanas, a começar pela célebre carreira 15.
Em janeiro de 1941, serviços e numeração de algumas linhas foram alteradas, e em “26 de julho de 1944, outras foram subdivididas, em consequência da demolição de parte da Alta, que apagou o degradado património da antiga cidade medieval, dando lugar aos novos edifícios da Universidade”. Com o declínio da utilização dos carros elétricos, surgiram os primeiros troleicarros, inaugurados em16/8/1947, na linha 6 – Stª. Clara.
Os troleibus passaram a circular por ali, “mas já entre os novos e pomposos edifícios da Universidade”; e nos anos 50–80 foram introduzidas adaptações nas oficinas dos SMTUC, para manutenção e remodelação dos veículos remanescentes, até a rede ser substituída por troleicarros e autocarros, resistindo apenas aqueles ao “crime” da devastação, o que já vinha sucedendo, paulatinamente, desde finais da década de 40, porque Coimbra não tem tido decisores esclarecidos em lugares chave, que apreciem carros elétricos em carris, talvez por andarem envolvidos nas nuvens, quando anularam tudo o que de belo existia naquele meio de transporte.
A beleza do seu deslizar por ruas e veredas, parecendo enfatizar-se na sua ronceirice, a chamar a atenção dos transeuntes, davam um carisma peculiar de vivacidade à cidade – que só o alardear daqueles que, dispondo de meio de transporte individual, se mostravam incomodados com o ruído –, fazendo parte dos hábitos dos conimbricenses. O que não perturbava, nem perturba ainda, os lisboetas e os portuenses, que mantêm os carros elétricos em pleno funcionamento, a par do metro e dos autocarros. Terão muitos milhões de euros sido inglórios para o Metro Mondego ou parte deles um maná para alguém?
(cfr. o Google)