16 de Março de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A morte e o sentido

13 de Fevereiro 2026

A morte é o momento mais individual, íntimo e solitário que existe na vida de cada um, é o acontecimento mais inevitável. Se cremos num sentido transcendente da vida humana, acreditamos na imortalidade da alma e na vida após a morte, numa vida etérea e eterna. Se, pelo contrário, encontramos nesta vida o único sentido para viver – um sentido imanente – então cremos que com a morte tudo termina, sem salvação ou perdão divino e sem eternidade. Os crentes em Deus admitem a primeira hipótese e preparam-se neste mundo terreno para o juízo final, devendo orientar a sua vida por princípios éticos adequados a uma vivência cristã. Quem é ateu e não crê na imortalidade da alma (nem na existência de qualquer alma), confia nos seus projetos e objetivos de vida para lhe darem sentido para continuar a viver e sentem-se felizes pelos seus descendentes que, juntamente com a obra realizada e atos, perpetuam neste mundo o seu nome, dando-lhe “imortalidade” e um sentido pleno para a vida. Por outro lado, há as teorias da reencarnação das almas, que ressurgem desde a antiguidade clássica e que defendem o regresso da alma imortal ao mundo físico após a morte, reencarnando num outro corpo (Pitágoras e Platão, por exemplo, com a teoria da metempsicose ou da transmigração das almas).

Será que há vida depois da morte? No que acreditar? Quem, acerca deste assunto, detém a verdade? Com a morte do corpo tudo termina e não há lugar a uma vida eterna suprassensível? A vida só tem sentido neste mundo? Ou a alma existe e é imortal, havendo um sentido transcendente para o nosso viver? Inúmeras são as perspetivas, mas certezas não existem. Tudo resulta de crenças e a crença é o domínio do ilógico, do absurdo (S. Kierkegaard). Como defendeu Sócrates, na antiguidade grega, “morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”. Certa para todos é a morte e cada um tem de escolher e encontrar para si um sentido para continuar a viver sem ignorar a sua mortalidade enquanto animal humano. Certo é que com a morte tudo termina neste mundo físico em que diariamente se vive: as ambições e os sonhos, as invejas e ódios; o sofrimento e a dor; a felicidade sentida em instantes; as alegrias ou tristezas. Enfim, a morte é o ponto final da vida que, como um texto, vamos compondo em cada momento, reajustando e corrigindo os atos que praticamos e os projetos que idealizamos. De qualquer modo, o viver bem implica sempre e simultaneamente ter consciência da morte que, em cada instante se aproxima, e da nossa situação de mortais. Afinal de contas, é a morte que dá sentido à vida, porquanto logo após o nascimento estamos a caminhar para a morte e viver é reconhecer a morte como um facto último e inevitável. Mas, mesmo com esta inevitabilidade a morte é, para muitos, dolorosa e indesejável. Ao temer a morte desejaríamos talvez uma vida eterna neste mundo físico, que a concretizar-se provavelmente se tornaria, com o passar dos anos, uma vida enfadonha e com diversas vicissitudes e “passaríamos a sonhar com a morte” (Ivan Teorilang). Vida e morte são, por conseguinte, as duas faces da mesma moeda que carateriza a nossa essência enquanto animais humanos e determina a nossa existência neste mundo.


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