6 de Agosto de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A criança e o jornal da escola (II)

6 de Agosto 2026

O texto livre, segundo Freinet (1896-1966), é o centro de toda a atividade escolar. A criança lê na sala de aula o seu texto: procede-se depois na turma a uma votação dos textos lidos e o texto que for escolhido nessa votação será corrigido e aperfeiçoado coletivamente podendo algumas frases serem completadas e melhor ordenadas ou até embelezadas sem, contudo, anular nem violentar a paternidade do texto e o “espírito” com que foi criado. O texto é corrigido sob a vigilância da criança que o escreveu, que se pode manifestar e defender o seu ponto de vista se vir alteradas, pela correção, as ideias que inicialmente tinha ao escrever o seu texto.

Surge então o jornal da escola, com todas as suas possibilidades de comunicação que, tirando partido da necessidade que a criança tem em se exprimir, serve como motivação à realização do texto livre. Ainda segundo o mesmo pedagogo, o jornal aparece como meio de expressividade livre e comunicação, fundamentais para o sucesso pedagógico. O jornal realizado na escola é, então, constituído por uma recolha de textos livres, feitos e corrigidos pelas crianças – com a orientação subtil do professor – que vão sendo impressos diariamente, também pelas crianças, e agrupados mês a mês numa encadernação especial sendo em seguida enviado para assinantes e correspondentes.

As crianças são sensíveis a todo o trabalho de imprensa dos seus próprios textos: após a composição dos textos livres, elas veem-nos “renascer” enquanto trabalham como “tipógrafos” e são também as crianças que controlam todas as etapas da formação do “seu” jornal. Todo o trabalho de composição e tiragem do jornal escolar é feito coletivamente pelos alunos, o que pressupõe uma cooperação social das crianças, tornando-as responsáveis pelo que realizam.

São inúmeras as vantagens do jornal da escola, tanto a nível pedagógico, como nos níveis psicológico e social. Colocamo-nos com esta nova forma de trabalho escolar, na via de uma construção diferente da Escola, que já não trabalha segundo normas estritamente intelectualizadas, mas sim com base numa atividade social da criança tendo em conta, também, toda a sua afetividade e necessidade de comunicação. Pelo jornal da escola fazem-se os melhores exercícios de redação, ortografia e de gramática; pelo intercâmbio de jornais escolares, entre variadas escolas, podem as crianças obter um estudo do meio ambiente de diferentes regiões, sob o ponto de vista histórico, geográfico e científico, assim como entrar em contacto com meios diversos, industriais, comerciais, agrícolas e culturais, refletindo-se isso num considerável alargamento dos conhecimentos escolares de cada criança. O jornal escolar é um bom método de explorar a necessidade que toda a criança sente de exteriorização; por outro lado, pelo trabalho de realização de textos e composição do jornal, pela criança, pode o educador ter um melhor conhecimento psicológico do seu aluno: a criança ao realizar um trabalho que a estimula e lhe agrada mostra-se, sem subterfúgios, tal como ela é, expandindo a sua personalidade.

Deve haver, pela educação, uma influência nas crianças sobre a sua capacidade de virem um dia mais tarde a cumprir da melhor forma a sua função de homens e de mulheres e cidadãos. O jornal da escola, integrado nesta forma nova educativa estará, segundo Freinet, “… à medida de uma educação que, pela vida, prepara para a vida…”, de acordo com os ideais do movimento da Escola Nova.


  • Diretor: Lino Vinhal

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