24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A adolescência e a construção da identidade

9 de Janeiro 2026

O período da adolescência, no processo de crescimento pessoal, é considerado, quase consensualmente, como fase determinante no desenvolvimento da identidade/personalidade. Foi Eric Erikson, (1902-1994) psicanalista e psicólogo do desenvolvimento de origem alemã, que revolucionou as ideias tradicionais acerca da natureza da adolescência, reconhecendo-a como um «estádio de desenvolvimento por direito próprio», com características específicas. Para Erikson, o desenvolvimento humano dá-se segundo uma tríplice relação entre o indivíduo, o meio ambiente imediato e as influências históricas, enfatizando-se o carácter psicossocial da construção da identidade. Para este psicólogo, a adolescência é um período de agitação e tensão, sendo então a idade em que o indivíduo poderá adquirir uma identidade psicossocial, compreendendo a sua individualidade e o seu papel no mundo e vendo-se a si próprio como um ser único integrado na sociedade. É nesse estádio de desenvolvimento (difusão/confusão versus identidade) que os adolescentes exploram, ensaiam vários estatutos e papéis sociais. Há também a confusão de quem ainda não se encontrou a si próprio, não sabe o que quer e tem dificuldade em fazer opções. O adolescente não sabe bem como agir porque não sabe exatamente quem é, inicialmente confuso quanto à sua identidade. Quanto maior for o sucesso com que domina a crise da adolescência, mais segura e realista será a pessoa na vida adulta e mais clara e bem definida será a sua personalidade. Se o indivíduo falhar na tarefa da descoberta do Eu, que tem de enfrentar na adolescência, sofrerá a difusão/confusão da identidade: não terá uma ideia clara da pessoa que é e será vítima de pressões diversas e contraditórias da vida adulta agarrando-se, para se sentir seguro, a uma imagem rígida e artificial de si próprio. Por causa das modificações no equilíbrio hormonal, muitos adolescentes estão sujeitos a violentas flutuações no estado de espírito: o amor e afeição que têm por aqueles que os rodeiam podem tornar-se subitamente, em irritação e aversão ativa – isto cria perplexidade e confusão no próprio adolescente. “Quem é a pessoa real escondida nesta confusão?” Descobre-se também, muitas vezes a ser influenciado pelos outros: tem um comportamento com os pais, outro com os amigos e outro ainda com os professores. É nesta etapa de desenvolvimento que se alcança também um marco decisivo no desenvolvimento cognitivo – o que é designado por J. Piaget, pelo “estádio das operações formais ou abstratas” – fazendo com que o adolescente efetue um raciocínio hipotético-dedutivo e abstrato. É isto que, juntamente com a sua frustração relativamente ao mundo adulto, torna o adolescente tão propenso a “pôr tudo em questão”. Conceitos como os de liberdade, justiça e igualdade, começam agora a ter um significado diferente para o adolescente e antes de enfrentar as realidades do mundo adulto, passa frequentemente por uma fase de idealismo, durante a qual “quer endireitar o mundo”. Identifica-se, por vezes, com heróis de culto – desportistas e artistas populares. Os “pares” são cada vez mais importantes nesta fase do desenvolvimento do adolescente, especialmente em questões de vestuário, linguagem e comportamento, e a aceitação por parte do grupo, é muito importante para ele tentando seguir as suas normas. Eric Erikson é um dos autores mais importantes no estudo da adolescência, pelo seu contributo para a compreensão da formação da identidade, nessa fase do desenvolvimento humano. Foi também inovador ao apresentar a adolescência como tendo características específicas, que devem ser tidas em conta, distinguindo essa etapa de outras que constituem o processo de desenvolvimento do indivíduo, que se prolonga por toda a vida em oito estádios. Apresenta também na sua teoria um dos conceitos fundamentais para explicar um desenvolvimento saudável e equilibrado da identidade, nos adolescentes, que é o de “moratória psicossocial”: a sociedade deve permitir ao adolescente um “tempo” de experimentação, que será importante na construção da sua identidade e na sua integração social.


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