O professor catedrático de Relações Internacionais José Manuel Pureza proferiu, na segunda-feira (26), a sua última aula na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), perante um auditório completamente cheio que o aplaudiu de pé.
Sob o título “O fim do mundo, quem sabe, o seu romper”, o académico de 67 anos e antigo vice-presidente da Assembleia da República dedicou a lição final aos três pilares da sua carreira de 34 anos na instituição: a paz, o direito internacional e o papel da universidade.
Numa intervenção incisiva e acompanhada por um cravo vermelho, o docente alertou para o risco iminente de um conflito planetário com capacidade para destruir a humanidade, impulsionado pelo colapso das regras globais e pelo rearmamento das grandes potências.
Durante a aula, o especialista sublinhou que a escalada de violência e a ausência de limites vinculativos aos arsenais nucleares estratégicos confirmam o diagnóstico de uma guerra à escala global em construção.
“Os pedaços da terceira guerra mundial diagnosticada pelo Papa Francisco estão a unir-se muito rapidamente e a dar razão à perceção, cada vez mais intensa, da iminência de um conflito mundial, que sabemos ter uma capacidade destrutiva da totalidade da humanidade”, sublinhou.
Para o académico, a degradação da ordem internacional traduz-se na banalização do recurso à força e em discursos políticos que ressuscitam práticas que se julgavam ultrapassadas, como a ocupação e o bloqueio. José Manuel Pureza apontou a situação em Gaza como a “epítome dessa hecatombe”, onde a negação de princípios fundamentais, da proteção de civis à proibição de crimes contra a humanidade, expõe a vulnerabilidade do direito internacional e a incapacidade de travar ações desproporcionadas.
Apesar de reconhecer a gravidade da conjuntura atual, o fundador do Núcleo de Estudos para a Paz do Centro de Estudos Sociais (CES) recusou a tese de que a ruína da ordem global seja um fenómeno recente. Segundo o docente, o direito internacional sempre funcionou historicamente como uma ferramenta de domínio dos Estados mais fortes sobre os mais fracos, sendo a Organização das Nações Unidas frequentemente instrumentalizada ao serviço de interesses geopolíticos.
A fechar a sua aula jubilar, o académico deixou ainda uma nota crítica sobre o rumo da própria instituição universitária, criticou a “rendição” da universidade a um modelo que a torna “pouco crítica”.