31 de Julho de 2026 | Coimbra
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CLARA LUXO CORREIA

… chega sempre à uma e cinco!

31 de Julho 2026

A senhora do relógio parado vive no meu bairro lisboeta e, ao contrário do que o seu pulso faz supor, leva uma vida cheia de movimento. O relógio é antigo, de números romanos, e morreu à uma e cinco. Desde esse dia nunca mais voltou a mexer os ponteiros. Continua, no entanto, fiel ao pulso da dona, como um velho companheiro que já não serve para dar horas, mas ainda sabe fazer companhia. Há quem troque a pilha. Aquela senhora, pelos vistos, preferiu trocar o ritmo.

Nunca lhe perguntei porquê. Tenho receio de que me responda que o tempo só corre porque nós insistimos em persegui-lo. Ou talvez ache que um relógio parado é a única maneira de impedir que os dias nos escapem entre os dedos.

Todas as manhãs consulta o relógio. Ele responde sempre o mesmo: uma e cinco. Depois olha pela janela para descobrir se ainda é madrugada ou se o sol já tomou conta da cidade. Afinal, o relógio nunca lhe diz as horas, mas obriga-a a olhar para o céu. Não é mau serviço para um relógio avariado.

Quando o dia amanhece, levanta-se, arranja-se, come qualquer coisa e sai para o bairro. Não precisa de saber as horas. Basta-lhe ouvir os carros, ver o movimento das pessoas e sentir a cidade a acordar. Anda devagar porque já teve pressa e sorri porque já chorou demais. Quando chega ao parque, senta-se, abre um livro e deixa que sejam as palavras a marcar o compasso da manhã.

Regressa a casa para uma refeição simples, entretém-se com uma série ou dedilha a guitarra, enquanto espera que a tarde aconteça. E sabe exatamente quando ela chega, não porque o relógio lho diga, mas porque o bairro se enche de mochilas, gargalhadas e bolas que insistem em fugir para debaixo dos carros. As crianças regressam da escola e ela regressa, por momentos, à sua própria infância. Vai até ao parque, observa as brincadeiras, sorri aos pais e deixa-se contagiar pela alegria de quem ainda mede o tempo em recreios.

Quando decide que o dia já teve o tamanho certo, levanta-se e volta para casa. Antes de entrar, lança um olhar ao relógio. Continua a marcar uma e cinco. Nunca falha.

Gosto muito da minha misteriosa vizinha, a senhora do relógio parado. Às vezes penso que o relógio avariou. Outras vezes suspeito que fomos nós. Passamos a vida a correr atrás do tempo, enquanto ela, com um relógio eternamente parado, parece ser a única pessoa do bairro que nunca chega atrasada à vida… chega sempre à uma e cinco!

 


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