31 de Julho de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A criança e o jornal da escola (I)

31 de Julho 2026

Toda a criança sente, como uma necessidade natural, o impulso de expressar livremente os seus sentimentos, os seus receios e dúvidas, as suas experiências do quotidiano. Ao entrar na escola reprime, muitas vezes, a parte mais rica de si mesma, guardando no seu íntimo toda a capacidade espontânea de sonhar e de criar, começando a enquadrar-se prematuramente no mundo dos adultos, que pouco representa ainda para ela. É, por isso, necessário que o ato educativo seja, antes de tudo, a conjugação harmoniosa das necessidades essenciais e vitais da criança com a “obrigação” do trabalho escolar, na realização de uma escola que estabeleça a unidade da vida da criança. Centrar a escola na criança, nas suas capacidades e anseios, deixa de ser mera ilusão teórica e torna-se realidade, quando o educador, ao invés de um “adestramento” a regras pré-fixadas e, quantas vezes, fastidiosas, inicia a criança na função ativa da sua própria aprendizagem, permitindo-lhe que descubra por si e torne extensivo à sala de aula, todo o seu “pequeno” mundo. E então a criança sentirá que a educação, integrando a sua própria existência, não é uma necessidade a que tem de se sujeitar contra vontade, mas antes, é um aspeto importante da sua vida. E é neste contexto, de ensino como formação de uma personalidade livre, expressiva, crítica e original, com vista à integração “… do Eu no mundo e à transformação recíproca do mundo pelo Eu e do Eu pelo mundo” (Maria Amália Medeiros, 1919-1971), que podemos analisar a função pedagógica importante que o jornal da escola desempenha no desenvolvimento educativo da criança. Ao sentir que a criança deve participar ativamente no seu próprio processo de educação, Celestin Freinet (1896-1966) encorajou os seus alunos a produzirem diariamente textos e desenhos livres que, segundo ele, substituiriam as redações e as cópias impostas pelo professor e permitiriam um conhecimento mais adequado da criança, pelas suas produções espontâneas. Como meio educativo fundado numa pedagogia “natural”, própria das Escolas Democráticas, temos, não o pensamento ou a autoridade dos adultos, mas, pelo contrário, o próprio interesse da criança que se manifesta livremente, “…naquilo que sente necessidade de exprimir, de exteriorizar, de comunicar aos que com ela convivem.” (Celestin Freinet) Substituindo a rotina dos manuais escolares, dos trabalhos de casa e das lições magistrais, surge com Freinet um novo método de trabalho escolar, com fundamento em técnicas de expressão livre, de observação e experiência direta com as coisas que vão facultar uma aprendizagem da leitura e da escrita, assim como uma aquisição frutuosa de conhecimentos em diferentes disciplinas. Segundo ainda o pedagogo Freinet, a expressão livre, oral e escrita, da criança na escola, manifesta-se no texto livre que, contudo, não deve ser identificado com a “redação de tema livre” porque esta é ainda uma imposição feita à criança em que ela sente a obrigação de, numa hora determinada e fixa, desenvolver um tema, não tendo nesse momento, muitas vezes, um assunto interessante ou apaixonante para escrever anulando, então, toda a sua criatividade e espontaneidade. Um texto livre deve ser fruto de uma total liberdade onde a criança possa realmente expressar, sem condicionalismos impostos pela escola, as suas emoções, as suas ideias em formação, aspetos do meio em que vive, recordações, relatos de viagens, descrições de férias e, enfim, mostrar em plenitude toda a sua personalidade, brotando de uma experiência única e original que é a sua; a criança não deve ser obrigada a escrever, mas ela só o deve fazer quando sente que tem algo a dizer, pela necessidade de exprimir “aquilo que nela se agita”. O texto livre torna-se, assim, o centro de toda a atividade escolar: a criança escreve o que tem vontade de dizer ao seu professor e aos colegas e lê depois, na sala de aula, o seu texto tentando interpretar, o melhor possível, o significado das palavras que escreveu. Cada um destes textos livres “… será transformado em páginas de vida e depois em elemento do jornal escolar”. (Freinet)


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