25 de Junho de 2019 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Vozes que nos ficam…

12 de Abril 2019

Serão muitos aqueles que jamais se esquecem dos tempos de uma infância ou de uma juventude em que muito do que nos soava ao ouvido logo se ia gravando com o tempo na memória. Refiro-me concretamente a toda uma sabedoria popular que vamos escutando ao longo da vida pelas vozes dos nossos pais e avós, uma sabedoria que nos chega oralmente e que só mais tarde nos apercebemos da riqueza afetiva e popular daqueles cantos de embalo, daquelas histórias que nos contavam até chegar o sono, dos cantos ao serão ou de uma reza dita à pressa em noites de trovoada, uma espécie de lengalenga que sem nos apercebermos do que para ali diziam, nos limitávamos apenas a respeitar. Tudo se resume a um grande legado, uma herança que se deve herdar com o interesse da divulgação e da preservação, tentando que parte do que conseguimos reter continue a passar geracionalmente como até nós nos chegou. De região para região, entre os meios rurais e os grandes centros, são muitas as diferenças, assim como muitas as variantes daquelas quadras que se deixaram de ouvir ao serão, nos campos, nos terreiros, que se deixaram de ouvir na forma espontânea e natural com que se proclamavam.

As XVII jornadas de cultura popular do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) salientam este ano o papel da mulher na cultura popular, debruçando-se sobre os ofícios, os cantos e os contos. Sem dúvida um tema de grandes abordagens e de merecida homenagem à mulher portuguesa. É delas que absorvemos uma parte de toda esta herança cultural que nos fica no ouvido. Sem dúvida um tema de realce que se apresentou através de interessantes colóquios, concertos, entre outras atividades que este órgão tão bem apresentou.

Destaque para a candidatura da polifonia a património da humanidade, distinção que com certeza será aceite e proclamada, não só à região de Lafões ou ao Minho mas um pouco por todo o país, um tributo merecido ao canto, aquele que se vai passando de geração em geração e que marca de alguma forma a identidade sonora e oral das regiões que aos poucos se vão calando para sempre, salvo o resgate por grupos e por interessados nestas temáticas.

É uma alegria ver uma criança nos dias de hoje a cantar uma moda de roda, um canto que alguém lhe ensinou de tempos idos. Na inocência da infância tudo isto é alegria e jeito de brincadeira, no entanto o melhor começo para se iniciar a comungar a cultura das nossas raízes. O milagre é que daqui a uns bons anos esta mesma criança ainda se lembre e transmita os versos que hoje canta e reza, entendendo o seu valor etnográfico, cultural e geracional. Talvez as “modas” sejam outras, mas a esperança é a última a morrer, por muito que seja nítido o declínio de toda esta herança que muitos nem sequer querem herdar, nem sequer entendem.


  • Diretora: Zilda Monteiro

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