24 de Junho de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Uma vida ensarilhada

17 de Janeiro 2020

Ia o sol despertando os seus raios doirados e salientes naquela madrugada tão alva, em que por minutos entreguei o meu olhar à contemplação do romper daquela aurora fria que mais parecera um postal ilustrado, daqueles rústicos e bucólicos já raros de ver por aí.

“A velha andou a peneirar toda a noute… Agasalha-te! que quem anda ao sol cresta-se e quem anda à geada queima-se!”.

Saí de casa debaixo daquela voz que ternamente despertara no silêncio da manhã. Daqueles dias em que o reboliço da cidade não nos entra nos ouvidos, no entanto de lá nos chegam as mais aparatosas notícias, dádivas e desgraças, desta nação e dos quatro cantos do mundo onde pouco depois do dia mundial da paz um novo conflito nos chegou aos ouvidos.

Aos poucos o dia ia tomando forma, neste meu meio berçal entre os contornos do sossego e os caminhos de um litoral onde a vida se aclama futurista. O canto da passarada intensificara-se, azafamado e afinado que debaixo daquele sol de inverno bem parecera um canto de primavera. A melodia rural e natural foi-se compondo sem que notasse, cenário perfeito de um verdadeiro romance burilado, na realidade a melodia mais bela que me agraça a vida.

A rotina da partida para os empregos repetia-se e num instante, ainda o sol refletia os seus primeiros raios no fino lençol de gelo que caíra sobre os campos e os telhados, numa brancura mais pura que a própria cal que dá cor às casas, a aldeia ficara deserta, entregue a meia dúzia de pessoas, os seus guardiões.

Foi na tarde desse mesmo dia que numa dessas minhas conversas e recolhas de um passado adormecido, em busca dos fragmentos da memória etnológica e popular destes povos, que me dei em longa conversa com uma senhora que me mostrou uns objetos que me prometera há muito: um ripo, uns fusos, uma roca e um sarilho. Depois de a escutar sobre o ciclo do linho e da lã nestas terras (Vale e Serra de Semide), de esclarecermos conceitos e expressões etnográficas, depressa estas pessoas descrevem as suas próprias vidas. Sem que nada pedisse, roubei-lhe da boca a seguinte quadra:

“As voltas que o linho leva,

Antes d’ir para o tear,

Não são tantas como as voltas

Que eu neste mundo vou dar.”

Singela quadra do nosso cancioneiro que de imediato figura a vida humana numa metáfora envolta de meadas e novelos, tal como a vida assim o é. Muitas voltas deu a vida destas gentes, que merecem ser honradas, mais não seja numa prova de gratidão pelo que foram e passaram, pelo que fizeram chegar ao presente, esta data em que agora vivem numa velhice por vezes só, “se não fossem estes ares, já cá não estava”.

Os ares da própria terra, onde nados e criados, parecendo os seus rostos que foram moldados com o barro destes solos, com o frio das invernias e o calor dos estios, a sua sabedoria com a humildade e a vontade de todas as artes.

Remexia e fotografava aqueles objetos certificando-me dos nomes, apesar de os já conhecer, mas que sempre nos surpreendem pelo seu detalhe, “Este é o sarilho. Certo Ti Nazaré?” – “Esse é o mundo de hoje!” De imediato intrigou-me tal resposta, “O mundo?…” – “Pois! é o mundo de agora moço! Uma vida ensarilhada…”

Daquelas simples respostas que me ficam na cabeça para o resto do dia. E batidas as trindades, quando com mais tempo me pus a registar aquela recolha analiticamente, não me saía da cabeça aquela metáfora que perante mim mesmo, mais uma vez me consagra o povo a que pertenço em todos os seus aspetos de serranos e sábios, de gente de memórias carregadas de sacrifício e de uma alegria comunitária que já se extinguiu.

Foi nesse dia, em que a noite nem parecia ser feita de escuridão, mas sim de luz, de um luar tão irradiante que no céu estrelado afirma que “não há luar como o de janeiro, nem amor como o primeiro” que nasceu esta humilde prosa.


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