24 de Setembro de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Uma aliança entre serras

19 de Outubro 2018

Como qualquer rio que corre até à foz, também a nossa vida tem um término, é ela esse mesmo rio que vai escrevendo os seus momentos pelas margens de um leito ora mais agreste ora mais ligeiro, conforme as presas que se constroem pelo seu caminho, os desvios que vai tomando e as pedras que vai enrolando no seu percurso. O Mondego e o Ceira são os rios desta “nação valente” que diluíram as mais belas retóricas de nomes notáveis da literatura, mas são as gentes que se estendem pelas suas margens que nos contam e retratam fielmente a comunhão constante entre o homem e a água. Ambos se caracterizam como rios tipicamente serranos, revelando pelo seu caminho histórias escritas pelo amor e pela solidão, sentimentos que qualquer poeta sabe decifrar e entender, como aqueles simples homens que habitam nas suas margens.

É no alto da Estrela que nascem as águas do rio mais genuíno de Portugal. Ali rebenta do granito tosco e ancestral, tomando logo o nome de Mondeguinho. Assim batizaram carinhosamente o seu berço de menino, aquele berço de que vai fugindo tomando um rumo distante, desde aquela sua inocência e liberdade tão natural pelas encruzilhadas da serra até à sua maturidade esplêndida com que se apresenta nos campos do Baixo Mondego. É no seu leito inicial que assume a sua beleza mais característica, correndo e saltando num ato infantil que vai expressando de um modo inato por entre montes e penedos. Por toda a serra Beirã que vai beijando, esboça os mais pitorescos retratos perante os extensos lameiros que ladeiam o seu leito, salpicados de lã pelos rebanhos que lhe decoram as margens. O chocalhar do gado junta-se ao canto das suas águas, fazendo-nos apreciar verdadeiras crónicas serranas, dialogadas entre pastores e queijeiras que são elementos ativos destas paisagens. Já longe da sua serra mãe, depois de muitas águas acolher no seu regaço, o Mondego acolhe o Ceira já bem perto de Coimbra. É naquela união que aqueles dois rios aclamam a palavra “saudade”. Já não há barqueiros que os naveguem nem lavadeiras que lhes procurem as águas. Chegado à cidade dos Doutores atinge ali o seu esplendor mais poético. Desde sempre venerado da “Lapa ao Choupal” sendo merecedor de tantos poemas e baladas, fados e guitarradas e de mais artes que inspira. As extensas lezírias do Mondego provam a fartura que a água dá ao Homem, sem ela morreríamos famintos e não haveria paisagens tão verdejantes como os campos do Mondego. Já cansado, vai avistando o mar ao longe, onde por terras da Figueira se dilui num agridoce na maresia do Atlântico.

Com semelhante beleza se apresenta o Ceira. É este rio que me define o meu sangue de serrano, o sangue de qualquer Beirão da Serra. É na paisagem bucólica do Açor que nascem as suas águas, que mais parecem lágrimas que ali escorrem do xisto, o mesmo que lhe vai contornando o caminho. Serpenteando a serra vai-nos revelando uma poesia viva onde todo o cenário comove pela sua simplicidade que nos induz ao abandono. As povoações plantadas nas encostas das suas margens são o reflexo da rusticidade das gentes e das paisagens do Ceira. Pequenas aldeias erguidas em xisto onde o culto ancestral dos moradores levou a que coroassem os montes de ermidas e decorassem as ruas com alminhas. Nestes locais por vezes ermos não admira que o povo se agarre ao Divino, nestas terras escondidas do mundo que nem o diabo sabe que existem. As margens deste rio relativamente pequeno, revelam memórias contadas ao serão onde os protagonistas são sempre os pastores, a figura dos moleiros, das lavadeiras e carvoeiros. Assim se descreve etnograficamente o Ceira, que desde a sua nascente até culminar nas águas do Mondego vai apresentando um povo que a ele se abeira, que desde sempre viveu a olhar o rio e a trabalhar a terra, amanhando os socalcos que arduamente esculpiu nas encostas de modo a tirar destes solos o pão nosso de cada dia. Os velhos moinhos vão ponteando as margens deste rio que vai correndo no seu leito estreito e cachoeiro, moinhos onde vão batendo no rodízio ora águas de bonança, ora águas de tristeza. Tal como a vida é improvável os moleiros provam-no perante o seu ofício. Os olivais dispersos pela serra completam o cenário de autênticas parábolas vivas que só o Ceira sabe transmitir a seu modo, refletindo o cariz destas gentes serranas que vêm nas águas do Ceira a reflexão de uma via sacra humana e natural. Para traz vão ficando as serras e aqueles vales profundos que não me canso de olhar. Além das cores destas paisagens alternadas a cada estação também os sons vão compondo este hino alternadamente. Quem passeie as suas margens não ficará indiferente ao canto da água, ao telintar dos chocalhos, ao chilrear constante da passarada e ao som monótono das mós que vão girando, esmagando o cereal lentamente como se a farinha fosse a ampulheta de um tempo que parece não passar.

Depois de diluir nas suas águas a seiva do Arouce e do Dueça é já no seu trecho final que sacia os extensos viveiros de árvores e as hortas do Ceira. Num leito já leve e mais mortiço junta-se discretamente à água do Mondego, numa aliança secular que assim o destino definiu, uma aliança entre serras, servindo-lhes de anel as pontes que os sombreiam e os povos que partilham as suas águas desde o vale até à foz.


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