13 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

Tia Maria das Dores

11 de Outubro 2019

Decorria a adiafa resultante da vindima, estando o vinho já encanteirado nos tonéis. Faltava fazer a aguardente, mas aí o bagaço podia esperar pois estava bem calcado e abafado na dorna com mantas de farrapos já que, desde sempre, os dias escolhidos para pôr o alambique a funcionar haviam de coincidir com os de chuva, quando não se podia trabalhar cá fora.

Na longa mesa que havia sido colocada na adega e em cima da qual estava poisada a broa e espalhadas a granel as batatas cozidas com pele e as azeitonas, era aguardado o conduto, que não tardou. E as caçoilas trouxeram galos estufados, com fartura e não à míngua, que a patroa nisso se empenhou, não esquecendo que havia na casa duas raparigas casadoiras! O rancho de gente era grande, e daí que as conversas divergissem pela noite fora, já que, no final, a jeropiga e as filhós a tal convidavam. A certa altura, um grupo até já falava na emancipação da mulher, nas leis que as protegiam e, por fim, das cenas de pancada que eram usuais os homens darem-lhes, sobretudo em maré de copos!

-Mas nem todas apanhavam, pois também aqui houve daquelas tesas e de respeito, falou a filha da tia Maria Marreca que bem se lembrava ter sido noutros tempos o bombo da festa.

-Como a tia Maria das Dores, nunca por aqui houve outra nesses tempos. E vai de contar que, num domingo à saída do terço, a tia Maria da Fonte “aussarbou” pelos ralhos, que o tio Zé Moitalta batera na mulher e que esta só clamava: – que mal é que eu fiz “home” para me tratares assim? E ele, enrodilhando as palavras pois era o vinho que falava, ameaçava-a que, se não se calasse, logo ali apanhava mais. Não foi preciso a tia Maria das Dores ouvir o resto. Meteu-se estrada abaixo, vindo a cruzar-se com um seu filho que estava de namoro à porta da rapariga, tendo-lhe este perguntado: – Onde é que Vossemecê vai, minha Mãe? Esta, depois de dar as boas tardes à moça, respondeu-lhe. – Vou ali abaixo, a casa do teu irmão, não me demoro. E num repente acrescentou: – Vem daí comigo. Com a bicicleta à mão, acompanhou a mãe em silêncio, notando que ela não estava bem em si! Chegada à casa do outro filho, entrou pela cozinha dentro e deparou-se com a nora a chorar, sentada no escabelo, ao borralho, enquanto dava mama a um menino e os outros brincavam de roda dela. – O que é que se passa aqui, perguntou-lhe. Mas aquela, soluçando, não lhe respondeu. Decidida, dirigiu-se para a meia sala, onde o Zé Moitalta tareava umas medidas para carregar os cartuchos, por via da caça que ia começar. – Foi esta a educação que trouxeste lá de casa? Alguma vez viste o teu pai bater-me? Não olhas para aquela desgraçada rodeada de filhos e um de peito? Que homem és tu?

E antes que ele respondesse, tirou a chinela do pé e deu-lhe com ela na cara de um lado e do outro ameaçando-o, de dedo em riste, que voltaria se a cena se repetisse. No alpendre, o filho que a acompanhara e a que tudo assistiu, mantinha-se em silêncio, um silêncio de respeito, só quebrado quando a ouviu dizer: – Vamos embora e toma isto como exemplo. Já à porta da rapariga, que ali continuava à espera e onde ele ficou de novo, a tia Maria das Dores, ajeitando o xaile de cadilhos que trazia pelas costas e, deixando as suas recomendações aos pais da moça, arrematou virada aos namorados: – Fiquem com Deus e que Ele vos abençoe e vos dê saúde e sorte! E lá seguiu, porque daqui a pouco tinha que ter a ceia na mesa.


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