Quantas vezes fui a Alcobaça? Sem conta. Nunca me canso de ir a Alcobaça. Sobre esta terra eu canto, como Maria de Lurdes Rosendo: Quem passa por Alcobaça, Não passa sem lá voltar… por mais vezes que lá vá, sinto-me um caminhante solitário, misterioso, obcecado por tudo o que vejo em redor. E o que vejo, ouço, sinto e canto ao vento?
O Mosteiro de Alcobaça, também conhecido como Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, é a primeira obra inteiramente gótica erguida em solo português, tendo sido iniciada a sua construção em 1178 pelos monges da Ordem de Cister.
Está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO desde 1989. É também um dos panteões nacionais, onde sobressaem os túmulos de Pedro e Inês, magnificamente cinzelados e que são considerados obras-primas da escultura gótica portuguesa. Revertem-nos para as suas paixões e os seus mitos. É aqui o reencontro final desse amor fantástico, narrado por todas as literaturas históricas, dramáticas e de cordel.
Quantas vezes já entrei nesse Convento, é sempre como se fosse a primeira! O seu silêncio é inigualável. Cheira a quietude eterna.
O rio Alcoa abraça a cidade de Alcobaça, onde se junta ao rio Baça, desaguando no mar a cerca de 12 km da cidade, perto da Nazaré.
De acordo com uma fonte, o nome da cidade de Alcobaça deriva destes dois rios. Uma outra fonte assevera, contudo, que o seu nome é de origem árabe (de Al-cobaxa) e que terá sido a partir deste que os dois rios terão sido denominados.
Percorrendo uma das margens do Alcoa, bem junto à sua ponte, poderemos apreciar o Circuito Camoniano Pedro e Inês, que surgiu de uma interpretação do Os Lusíadas e da abordagem que o poeta faz dos amores destes apaixonados. Uma vez que Alcobaça tem uma tradição arreigada e antiga de cerâmica, a margem que palmilhámos oferece-nos, à vista e aos sentidos, um conjunto de obras de arte arquitectadas com material de fábricas locais, que simbolizam o amor. O designado percurso Pedro e Inês em cerâmica de Alcobaça nasce de uma interpretação do episódio de Inês de Castro de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões (séc. XVI). Inclui ainda um soneto do mesmo autor e um outro de Miguel Torga (séc. XX). As 10 fábricas participantes traduzem em cada peça o universo literário, identitário e simbólico do amor de D. Pedro I e Inês de Castro, – figuras imortalizadas no Mosteiro de Alcobaça. Digno de se ver.
Um pouco adiante encontra-se o Jardim do Amor, em homenagem à história de Pedro e Inês. A cidade aproveita os ventos da história e das estórias para desenvolver temáticas românticas
Regressamos ao largo do Mosteiro e vamos percorrer as lojas que vendem cerâmica de Alcobaça, popularizada ao longo dos tempos e do país como Loiça de Alcobaça, facilmente identificada através dos seus tons de amarelo, verde, violeta e encarnado sobre um fundo predominante azul. A Louça de Alcobaça teve boa aceitação no país e no estrangeiro, entrando nas mais diversas casas da Europa e da América.
Ainda no largo do Mosteiro, nunca fico sem fazer uma visita à loja das Chitas de Alcobaça. Ainda hoje, a razão do nome “Chitas de Alcobaça” continua a ser um mistério. Segundo a historiadora Maria Augusta Trindade, autora do livro De Gil Vicente às Colchas de Chita de Alcobaça, Alcobaça detinha no século XVIII uma das mais importantes indústrias têxteis do País, e provavelmente, daí terá vindo a sua denominação.
A chita é um tecido de algodão estampado e caracteriza-se pelos seus padrões coloridos, riscas largas ou finas e motivos florais, animais, figuras humanas ou cornucópias. Com o passar dos séculos, este tecido não se perdeu no tempo, muito pelo contrário: redescobriram-se novas formas de aplicação e uso, que nascem das mãos dos artesãos e designers.
Por ser sempre diferente e irrepetível têm sempre a minha visita. Fascinado fico.
A herança doceira da Ordem de Cister e do povo, fez de Alcobaça a cidade dos, ditos, doces conventuais. Para mim únicos.
Para conhecer estas maravilhas é preciso visitar a Casa dos Doces Conventuais e a Alcôa. Aliás, esta última é inovadora na forma como expõe as iguarias. Já que Alcobaça se destaca também pela sua ginja, prove-a, por mim, com um destes doces.
E como estamos, agora, centrados na comida, não me esqueço da maçã de Alcobaça. O cultivo de fruteiras e em especial de macieiras, começou a ter um importante significado com a chegada dos monges. A maçã servia de sobremesa depois de faustosas refeições.
A importância da maçã na região manteve-se ao longo dos séculos.
A existência de um Centro de Investigação e Experimentação na Região, permite o conhecimento das novas tecnologias de produção, assim como a organização e a permanente actualização de conhecimentos dos seus produtores, daí que esta seja o ex-líbris da cidade que lhe conferiu o nome.
Como reparo: bebi em Alcobaça o melhor sumo de maçã da minha vida.
Para terminar, façamos uma caminhada em redor do Mosteiro e na sua rectaguarda vamos deparar-nos com o Montebelo Mosteiro de Alcobaça Historic Hotel.
Estamos em presença de um projecto do prestigiado arquitecto Souto Moura. Este hotel de 5 estrelas está inserido no ambiente único do Claustro do Rachadouro, perfeitamente integrado no Mosteiro de Alcobaça. É uma obra majestosa, com atmosfera histórica única, bem aproveitado sob o ponto de vista arquitectónico, sem desvirtuar o passado e as memórias.
Por tudo isto regresso sempre! E, quando parto, repito sempre o refrão, bem conhecido, Quem passa por Alcobaça, Não passa sem lá voltar…