17 de Abril de 2024 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Testemunhos: Uma vida densa de silêncios. Um ritual efémero

11 de Novembro 2022

Enalteçamos a poesia e os poetas, já que a vida é, em si, um poema. Um poema amargo, ou, pelo contrário, um poema exaltante. Mas é sempre um poema.

Sou um poeta amador, alguém que «poetiza». Tenta «versejar».

Dizem que os poetas são loucos, visionários, sonhadores. Serei? Posso ser tudo isso, sim, mas também, porventura, serei um abismo profundo apinhado de sensações. O poeta, o dito poeta, é sempre alguém que tenta agarrar tudo aquilo que os outros (os ditos não poetas) sentem, mas dificilmente conseguem colocar no papel.

O amor… ah! O amor! Não seria um legítimo poeta, ainda que mau poeta, se não ousasse debruçar-se sobre as lágrimas e as alegrias que respigam de um verdadeiro amor.

A poesia, na minha modesta opinião, é um modo de contar a vida, a vontade de viver ou não, as suas memórias, os imaginários, os estados de alma.

O poeta para mim, o bom poeta, é um mágico, um dançarino que impõe um ritmo às palavras que escreve, em qualquer lugar, em qualquer momento, num papel amarrotado ou na palma da mão, por vezes nem ele entende porquê ali e agora.

O poeta é um adivinho que, num acto repentista, exprime sentimentos, mágoas, alegrias. O poeta escreve impulsionado por alguém, por coisas, por tudo, por isso também, uma forma de meditação solitária e única, encantatória.

Como vão ver, sei pouco de poesia, talvez debite palavras com algum sentido harmónico. No entanto, para espanto de muitos, sou um «escrevinhador» de poesia.

Rabisco em qualquer lugar, em qualquer suporte, quando o sentimento se empenha, ou a euforia e o seu contrário tomam conta de mim. Versejo por entre os dedos da poesia.

A poesia é para mim um mito e pouco sei da sua edificação linguística. Estou certo de que se levanta em cada palavra, como a nuvem electrónica arquitecta o átomo e nela há a probabilidade de encontrar um electrão. O átomo liberta ou absorve energia; a poesia liberta ou oprime. A poesia é um ritual efémero, ou uma construção perene, memorial.

Dito de outra forma, talvez a poesia seja um modo de contar a vida, a vontade de viver ou não, as suas memórias, os imaginários, os estados de alma.

O poeta escreve impulsionado por alguém, por coisas, por tudo, por isso também, uma forma de meditação solitária e única, encantatória. E a prosa?

Rabisco em qualquer lugar, em qualquer suporte, quando o sentimento se empenha, ou a euforia e o seu contrário tomam conta de mim. Escrevo-a por entre os dedos da poesia. E posso dizer mais. Muitas vezes a minha poesia enreda-se num emaranhado de poesia – prosa. Ambas de mão dada para dar um modo de contar a vida ou a morte.

Eis como exprimi as memórias e os estados de alma dos meus progenitores.

No dia do enterro do meu pai ao chegar perto da cova funda, comecei a sentir passar à minha frente não a morte, mas o fio da sua vida. E ao cair de cada pazada de terra sobre o seu caixão, as palavras brotavam às golfadas. Chegado a casa escrevi-as num papel que ainda hoje guardo. Ei-las escritas na prosa possível:

“Hoje ouvi cair em cima do teu caixão pazadas de terra agreste. Não era não, daquela terra que tu domavas e que fazia florescer os teus pomares!… Era outra terra, que eu bem vi: muito mais madrasta e que vai devorar o teu corpo!

Olha…, mas deixa lá!…

Eu não vou esquecer a tua inteligência, a tua sagacidade, o teu engenho, a tua inventividade, e o amor que tinhas por mim, que tão bem sabias resguardar para que eu nunca o entendesse.

Olha pai, já estou a ouvir as tuas músicas. O teu trompete toca sozinho e tão bem! Tudo isto de que te falo, ela não vai comer, não, porque está comigo, guardado nas minhas entranhas e memórias.

Para sempre. Prometo-te.”

A minha mãe morreu e foi num caixão agreste para uma casa funerária. Cheguei primeiro que o resto da família. Olhei-a serena, fria, sem vida, muda. Empolgantemente saíram do meu âmago estes versos que num papelinho branco juntei às flores que lhe ofertei:

Minha mãe!…

Já agora….

Que vais de viagem,

Faz-me um último favor.

Carrega contigo,

Os cravos e as rosas

Do nosso descontentamento,

E o peso…

De muito amor.

É por tudo isto que todos os anos, no dia 1 de Novembro, ganho alento para me deslocar ao Cemitério da Conchada onde sepultei o meu pai e ao cemitério das Amoreiras, perto da Guarda, onde se encontram, num jazigo, a urna com os restos mortais da minha mãe.

Com respeito olho para esses sítios, e recito com reverência a prosa e o poema.

Todos estão ainda actuais.

 

 

 


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