16 de Março de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

TESTEMUNHOS: Trancoso, Terra de Bandarra

6 de Setembro 2024

Em finais de Julho deste ano de 2024 visitei mais uma vez Trancoso. Tenho por esta terra um afecto especial, pois o meu avô Brás, que era ferreiro, deslocava-se todos os anos à grande feira de S. Bartolomeu para vender os apetrechos agrícolas que construía com a sua magia.

Trancoso é uma cidade antiga, uma terra muralhada. Viveu no cruzamento de inúmeras guerras, por isso, foi transformada em fortaleza. Abriga no seu interior preciosidades de arquitectura civil, religiosa e militar, constituindo-se como um dos mais expressivos e belos centros históricos do país. Sem querer ser exaustivo, refiro apenas as igrejas paroquiais de Santa Maria e de São Pedro e a igreja da Misericórdia. Na arquitectura civil, deparamo-nos com a Casa dos Arcos, a Casa do Gato Preto e o majestoso Pelourinho, uma peça do mais puro estilo manuelino.

As belas ruas estreitas desta cidade respiram a qualquer esquina muita história e uma beleza que a cada canto nos surpreende. Caminhemos então, … desvendaremos inscrições em hebraico, estrelas de David e outros símbolos nas cercaduras das portas. No Largo Luís de Albuquerque, encontramos uma casa já acima referenciada, a casa judaica mais famosa da cidade, a Casa do Gato Preto. Um leão de Judá e os muros de Jerusalém estão gravados ao redor do portão. É provável que esta casa tenha pertencido ao rabino da comunidade, ou mesmo que o edifício albergasse a sinagoga. Na rua dos Cavaleiros existe uma Estrela de David gravada.

Não podemos perder uma visita ao Centro Cultural Isaac Cardoso de Interpretação Judaica, fundado em 2012. Este espaço, projectado pelo arquitecto Gonçalo Byrne, abriga, além do Centro, a sinagoga Beit Mayim, um jardim, duas salas de exposições temporárias, uma sala de conferências e um pátio onde encontramos um poço e inscrições em hebraico. No Centro pode-se ter acesso a arquivos sobre a história dos 700 judeus de Trancoso perseguidos durante a Inquisição.

Há pelo menos 3 centenas de dísticas hebraicas inscritas nas ruas desta histórica cidade, onde nasceu por volta 1603, Isaac Cardoso, renomeado autor, filósofo e físico judeu, falecido em Verona em 1683.

Outra coisa que surpreende o visitante é o número de publicações dadas ao prelo sobre a cidade e suas gentes. Para tratar o tema seguinte, servi-me dos Novos Cadernos de Trancoso nº1, Professias e Trovas do Bandarra da autoria de Santos Costa e editado em 2018

O poeta e sapateiro António Bandarra viveu no século XVI e era dotado para escrever profecias. Nasceu rico e perdeu tudo na estroina. Dedicou-se à divulgação em verso de profecias de carácter messiânico tornadas famosas por volta de 1531. Quando adulto, rumou a Lisboa por solicitação de místicos e teólogos cristãos-novos. Foi acusado pela Inquisição Portuguesa de judaísmo e as suas trovas foram incluídas no catálogo de livros proibidos, uma vez que despertaram interesse, especialmente, entre cristãos-novos. Enfrentou o tribunal inquisitório, que o considerou inocente, com a condição de deixar de interpretar a Bíblia ou escrever sobre teologia. Após o julgamento, retornou a Trancoso, onde morreu em 1556.

A obra do sapateiro de Trancoso recebeu o nome de Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra, interpretada como uma profecia ao regresso do Rei D. Sebastião, após o seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir em Agosto de 1578. Em 1815 surgiu uma nova edição com o título Trovas Inéditas do Bandarra e entre 1822 e 1823 uma terceira com o título, Verdade e Complemento das Profecias.

As Trovas do Bandarra influenciaram o pensamento sebastianista e messiânico do Padre António Vieira e de Fernando Pessoa.

As profecias de Bandarra incluem três pontos: o Quinto Império, A Ida e o Regresso do Encoberto (depois de Alcácer-Quibir, reconhecido como sendo D. Sebastião) e Os Destinos de Portugal. (para saber mais consulte Wikipédia ou leia o livro acima referido).

Deixo aqui expressas para os meus leitores duas trovas de Bandarra, por sinal, muito significativas, fundamentalmente, a última:

Em dois sítios me achareis

Por desgraça ou por ventura:

Os ossos na sepultura,

A alma nestes papeis.

 

Sou sapateiro, mas nobre

Com bem pouco cabedal:

E tu, triste Portugal,

Quanto mais rico, mais pobre.

Trancoso é uma terra de história, estórias, lendas e magia. Portanto muito mais haveria de dizer desta nobre terra. Não esquecerei o casamento de D. Dinis com a Rainha Santa Isabel, padroeira de Coimbra, que aqui se celebrou e as saborosas e típicas sardinhas doces de Trancoso, pois além de saborosas, evocam atrás de si, infindas lendas bem urdidas pela sabedoria do povo.

Se não conhece leitor, esta bela terra, alicio-o a por lá passar. Não se vai arrepender.

 


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