28 de Setembro de 2020 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: Rua(s) de Gente(s) com História

4 de Setembro 2020

Já lá vão uns tempos, resolvi estudar o patrono das ruas de uma terra do litoral que me é muito cara, tentando contribuir para o conhecimento de gentes que, pela sua história de vida, deram contributos importantes a essa terra. Foi minha intenção homenagear aqueles que estiveram profundamente a ela ligados e por ela fizeram algo.

Aprendemos que os nomes dos lugares de morada, deverão refletir os sentimentos e as personalidades de pessoas, e memoriar valores, factos, figuras de relevo, épocas, usos e costumes. Enfim, devem traduzir a memória das populações. Neste pressuposto, deverá a escolha e atribuição dos topónimos rodear-se de particular cuidado e pautar-se por critérios de rigor, coerência e isenção. O que em muitos casos não acontece. Ao longo do nosso trabalho, muitas pessoas nos fizeram sentir um certo desconforto com algumas dessas escolhas e foram-nos sugerindo outros nomes que, de acordo com o seu entendimento, mereceriam muito mais. Apesar de tudo, fui viajar pelas ruas e recordar pessoas. Foi um trabalho exaustivo de estudo e pesquisa. Como curiosidade, deixo neste artigo a descrição troponómica de duas ruas. Verifique-se que ao fazer a sua descrição fico a conhecer a história de vida das personagens e a sua contribuição para a exaltação deste lugar. É assim que deve ser e muitas vezes não é, culpa inteira das autarquias.

João de Barros (Rua /Travessa)

João de Barros terá nascido em Viseu (1496?) e falecido em Pombal (1570?). Ficou órfão, ainda criança, e foi acolhido nos Paços da Ribeira, onde exerceu as funções de moço de guarda-roupa do futuro rei D. João III.

Em 1525 é nomeado tesoureiro da casa da Índia, Mina e Ceuta, dando-lhe este cargo a experiência e o conhecimento que o levaram a escrever as Décadas da Ásia, em três volumes, sendo o primeiro publicado em 1552. Para além desta obra fundamental, João de Barros publicou outras, sendo de destacar a Crónica do Imperador Clarimundo (1520) e a Gramática de Língua Portuguesa (1540).

É através das suas Décadas que João de Barros ficará ligado à história do Pedrógão. O autor explicita, aí, que os marinheiros referenciavam as Pedras com respeito, local onde na altura poderá ter desaguado o rio Lis. A certa altura escreve-se: “(…) donde os navegantes, quando vêm ao longo desta costa conhecem já as madres de tais rios.”

É provável que as Pedras fossem, nesse tempo, um local lendário, onde as suas covas, lapas e grutas, davam abrigo a seres sobrenaturais que coabitavam bem com o elemento líquido.

Os velhos pescadores contavam que existia uma grande buraca aberta para as águas, onde os barcos e os marinheiros aportavam para se abastecerem de água doce, dada a sua abundância no local. Aí, certo dia, ter-se-ão encontrado com uma moura, numa dessas covas. O local ficou a ser conhecida por Cova da Moura. Alguns desses navegadores terão surpreendido esse ser encantado por volta da meia-noite “ a lavar a roupa para o marinheiro seu enamorado, que habitava no fundo das ondas enredado de roxas algas.”

João de Barros fica pois ligado aos pescadores e marinheiros, e também às Pedras e aos seus mitos.

Aquilino Ribeiro (Rua)

“Alcança quem não cansa” era o ex-libris de Aquilino Ribeiro, que nasceu a 13 de setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia de Carregal de Tabosa. A sua ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o início de um percurso que terminaria em 1904, com a expulsão do seminário de Beja, depois de ter contestado uma acusação do diretor da instituição.

Chega a Lisboa em 1906, onde se salienta pelos seus artigos de opinião em jornais republicanos. Mais tarde adere, de alma e coração, às movimentações republicanas, quer através da sua escrita demolidora, quer através da participação em atividades, que acabam por levá-lo à cadeia.

Em Paris, para onde teve que se exilar, inscreve-se no curso de Filosofia da Sorbonne, onde contacta com muitos intelectuais franceses e portugueses que, por motivos políticos, se viram forçados a viver fora de Portugal.

Estamos na presença de um escritor ímpar, um lutador sem fronteiras, que deixou como legado uma biblioteca ativa de 61 obras.

Por volta de 1922 começa a escrever o romance A Batalha Sem Fim, onde nos conta a lenda da Cova da Serpa e nos retrata o Pedrógão de uma forma excecional.

Na realidade, Aquilino Ribeiro andou, pelas terras do Pedrógão e do Coimbrão, em 1922. Era mais uma peregrinação de exílio, situação que sempre o fazia ausentar de Lisboa.

O livro denota bem os conhecimentos obtidos por Aquilino enquanto viveu por estas terras, para onde veio por influência de José das Neves Leal, seu amigo.

O Pedrógão deve a Aquilino, e a José das Neves Leal, um livro de eleição. Em 1963, quando se preparava uma grande homenagem ao escritor, este adoece subitamente e morre a 27 de maio.

Este livro é de leitura obrigatória, por tudo. Leiam meus caros.


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