26 de Janeiro de 2020 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

TESTEMUNHOS: Os velhos também são sábios!…

10 de Janeiro 2020

Enganem-se todos os que pensam que as noites de consoada, dia em que se reúnem as famílias, dia de amor, compreensão, é mesmo assim!

Em muitos lares, e à volta das mesas fartas, abastadas de bacalhau, iguarias, vinhos e outras bebidas similares, desenvolvem-se fortes discussões, sobretudo, entre irmãos e, pior ainda, entre pais e filhos. É no último cenário que as discórdias atingem os calores mais elevados.

Os filhos, pelos discursos proferidos, consideram que os velhos nada conhecem da realidade atual. Os pais defendem os seus saberes. Por vezes, estas desavenças persistem por longos tempos, após a consoada. A ceia já não finaliza, os presentes ficam em monte junto à árvore, sem serem distribuídos, as crianças choram convulsivamente. Mas tudo isto porquê e para quê? Tenho quase a convicção plena, pelo descortinado em meu redor, que nos dias que correm se adotou, fruto de várias vicissitudes à nossa volta plantadas, o pensamento dos filhos como superior, enquanto o dos pais vai mergulhando na solidão obscurantista. A ofuscação dos pais tornou-se como que a exigência da época. A sua experiência, a sua sabedoria, nos tempos das redes sociais, afoita os filhos a pensar que nada têm a aprender com eles. Esta rutura tem um alto preço. A auscultação mútua deixa de se dar e o desatino acontece entre as duas gerações.

Este ano, contaram-me um acontecimento provocado por uma discussão venosa entre filha e pai em que o predito anteriormente prevalecia, e, às tantas, já estava generalizado pela mesa fora. As crianças, essas, perante tamanho espetáculo choravam. Os pais, embrenhados na polémica, nem as ouviam.

A avó, uma mulher de 85 anos, da velha cepa e têmpera, levantou-se escandalizada, bateu com a mão na mesa, e, proferiu, em tom autoritário, bem lá de dentro das suas sábias memórias: – «Acabou-se, não têm vergonha, seus filhos e netos da internet!». «Ouçam o que tenho para vos dizer», afirmou Virgínia Caldeira. E, quando se previa uma desobediência generalizada, ao invés, fez-se um silêncio sepulcral na mesa. E disse: – «agora vão ouvir o que tenho para vos dizer».

“Meu marido, queridos Filhos e Netos

A época natalina desperta em mim sentimentos que me faz gostar genuinamente do Natal.

Retenho memórias vividas dos natais da minha infância.

A árvore de Natal deixava-me extasiada de encanto e tudo me parecia mágico. Era um enorme pinheiro com o tronco enterrado num grande vaso (talvez por ser pequena pareciam-me enormes, eu não chegava ao topo da árvore e os meus braços não conseguiam abraçar o vaso…) que a minha mãe forrava com papel colorido, caprichosamente recortado, que parecia renda! Os ornamentos eram bogalhos que o meu pai pintava de cores garridas; lacinhos de cores diversas feitos com fita estreitinha de cetim; pequenos sinos recortados em cartolina purpurinada com um pinhão com casca preso por um fio que simulava o badalo; pequenas figurinhas de anjos também elas feitas de cartolina, pintadas com lápis de cores, presas aos ramos do pinheiro por molas da roupa pintadas de verde; pequenas barras de chocolate envoltas em pratinhas de várias cores; pedacinhos de algodão em rama espetados nas agulhas do pinheiro simulavam a neve e, por fim, uma estrela de cinco pontas forrada de papel prateado amarelo, no topo da árvore.

Era a árvore de Natal mais bonita que alguma vez tinha visto!

Os odores também percorrem a minha infância: a canela com que minha mãe «bordava» a travessa da aletria; as rabanadas; o leite creme, que à falta de ferro para queimar ou por pura criatividade a minha mãe utilizava cascas de ovo que, com aguardente, colocava sobre o leite creme, e flamejava na hora de servir, para espanto e alegria dos mais pequenos.

No fim da ceia jogávamos um jogo com pinhões e uma pequena piasca.

Na hora de recolher, cada um colocava o seu sapato sobre o fogão esperando que o Menino Jesus durante a noite viesse trazer presentes.

No dia de Natal de manhã corríamos à cozinha e lá estavam os presentes…

Uma camisola para a minha irmã (que teimosamente ansiava por um casaco, cortou a camisola na frente, para desespero da minha mãe); umas calças compridas para o meu irmão, que lhe conferiam a virilidade que os calções lhe recusavam… e para mim uma boneca, que por ser feita de cartão depressa ficava sem nariz e sem as pontas dos dedos, mas nem por isso gostava menos dela!

Um ano coube-me uns sapatinhos de verniz. Adorei! Gostei tanto, tanto que adormecia com eles debaixo da minha almofada. Calçava-os ao domingo para ir à missa com a minha avó…

Depois dos Reis desmontávamos a árvore de Natal cujos objetos guardávamos em caixas de sapatos e os chocolates eram distribuídos com parcimónia pela minha mãe.

Esta torrente de memórias e afetos impelem-me a partilhar com aqueles que estimo para desejar Boas Festas.”

Houve unânimes palmas.

«E agora toca a brindar, acabaram as discussões.», repreende a avó.

Deste modo, a consoada acabou em bem!

Digam lá agora que os velhos não são sábios!…


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