23 de Fevereiro de 2024 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: o «idoso» e o mar

18 de Junho 2020

Se há palavra que tem sido usada, vezes sem fim, pelos comentadores, jornalistas e especialistas, durante todo o tempo que tem durado a pandemia é o vocábulo idoso. No princípio até de forma pejorativa; posteriormente, e face a algumas indignações, houve que cuidar dos modos e da linguagem.

Desculpem-me os sábios das áreas acima enumeradas, mas é palavra que abomino.

Na sua opinião sou idoso e de risco. Mas não sou. Apenas e simplesmente velho, se entenderem, de risco. Sou velho, e nesta condição estou sujeito a ter menos defesas para enfrentar o «bicho», logo maiores probabilidade de morrer.

Já lá vai o tempo em que o vocábulo – velho – era entendido como sinal de respeito, carinho, sem ter medo de o pronunciar. Que bem me sentia quando dizia no meio de uma conversa com amigos, não me poder demorar pois «ia visitar o meu velho». Que bom que era dizer à entrada da porta, com carinho, – «posso entrar velho»? E como o pai ficava risonho, feliz quando a ele me dirigia assim! Agora empregar a palavra velho, é diminutivo… as pessoas não querem assumir que são velhas, por isso se deixam apelidar de idoso, senior e tantas outras parangonas, pensando que desta forma podem disfarçar o seu estado físico e psíquico.

Faz parte do léxico do politicamente correto, hoje corrente dizer: recluso em lugar de preso, invisual em lugar de cego, professor do 1.º ciclo em lugar de professor do ensino primário, assistente operacional em lugar de continuo, etc., etc.

Existe medo e vergonha do que se é, porque este país sempre cultivou o Dr. Logo, é preciso arranjar palavras que dêem nas vistas e que se lhe equiparem.

Que tristeza teria Hemingway se apelidassem o seu livro de “O Idoso e o Mar”! Jorge Amado daria voltas de raiva no túmulo se cognominassem a sua obra “Os Velhos Marinheiros” por “Os Idosos Marinheiros”. Até o nosso Velho do Restelo acabaria transformado em Idoso do Restelo!

Não brinquem com as palavras senhores feitores da palavra. Eu sou velho e não me afrontem com a palavra idoso, por favor. Não gosto de alcunhas, muito menos no fim da vida.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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