24 de Fevereiro de 2024 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos – Moçambique um itinerário para o silêncio

24 de Abril 2019

Os reparos do mundo ainda afluem para a cidade da Beira, para outras vilas na província de Sofala e para as circundantes Tete, Manica e Zambézia, avassaladas por uma crise humanitária estonteante, provocada pela passagem do ciclone «Idai». Há quem diga que o ciclone destruiu 90 por centro da cidade da Beira, a segunda cidade de Moçambique, e que é preciso (re) erguer tudo noutro lugar.

O que mais custa é enxergar, de tão longe – perto, a pobreza das gentes que a nossa vista alcança. São sempre os mais vulneráveis a sofrer na pele e nas entranhas as consequências dos desastres. Olhem as aldeias do mato, onde vivem os miseráveis por quem ninguém se interessa, exceto nestas alturas em que é preciso mostrar solidariedade, como foram arrastadas pelas enxurradas!… Os esfarrapados, homens, mulheres e crianças, tudo perderam, bens e família. Ganharam, como sempre, um cardápio de doenças graves, desgraçadamente, diarreias e casos de cólera, tosse convulsa, pneumonia, tuberculose e muitas outras. Para além de todas estas, há também as de origem hídrica, já que existe o defecar a céu aberto, – pois onde fazê-lo? -, o consumo de água indecorosa, caldeada com fezes, que pode estar na génese da cólera.

Em suma: ficar sem nada é o destino, não ter teto, ter fome, ter sede, caminhar pela lama, pedir, o que quer que seja, para a família que na dura jornada lhes morre de fome e de doenças infecciosas. Chegaram àquela condição que aprofunda o estado de pobreza que, agora, já ultrapassa todos os padrões estipulados pelas organizações internacionais.

Os pobres, em bandos, desorientados, procuram um copo de arroz, meio litro de óleo, um cobertor, – óh meu Deus, o que mais, – que traz a ajuda internacional vinda de longe e de países ricos.

Onde estavam eles antes da tragédia, e o seu país político onde estava? Ninguém tem culpas desta tragédia? É só a natureza? A natureza avisou em 2000. Minoraram-se as consequências da seguinte catástrofe? Não é sabido que na época de fevereiro e março, a costa moçambicana é atingida por ciclones? Como se precaveu uma cidade praticamente construída ao nível do mar?

Quem quer responder?

Sei que ficou medo e morte, ruínas e caos, mais miséria e fome, uma multidão de enfermos, desalojados do seu chão, órfãos, mosquitos da malária, epidemias de cólera…, seres humanos destroçados de tudo. Mesmo tudo.

Quem acode a este mundo que se suicida? Ninguém.

Um itinerário para o silêncio.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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