18 de Abril de 2024 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

TESTEMUNHOS Doçaria Conventual: Mito ou realidade?

24 de Março 2023

Mesmo a calhar. Logo após o artigo por mim postado, neste jornal, sobre A Verdade da História, venho a ter conhecimento de uma tese de doutoramento onde se defende a adopção de uma só nomenclatura para a temática em apreço. Simplesmente, «doçaria tradicional ou histórica portuguesa».

João Pedro Gomes, o estudioso e doutorado apurou, no seu estudo, a ideia de «doçaria conventual». Considera-a um mito construído, defendendo a terminologia global que acima se expressa. Diz o autor: «No meio de histórias e mitos, as pastelarias fazem valer-se da própria ideia de doçaria conventual para vender e comercializar doces, associando-lhes uma história, que muitas vezes não tem qualquer documento que a suporte» . Neste contexto, o escritor assevera-nos: « (…) seria mais interessante valorizar a história de cada doce, porque todos têm uma história, não sendo essa necessariamente antiga ou vinda de um convento».

A Agência Lusa deu ênfase a este trabalho. No artigo a ele devotado, escreve-se: «[A ideia de doçaria conventual] é um mito criado. Os conventos também faziam doces, como toda a gente fazia. É um facto histórico que os doces feitos nos conventos circulavam fora dos conventos e com alguma valorização social por serem feitos naqueles lugares. Agora, que eles eram completamente diferentes do que existia cá fora. Não. Que eles eram secretos? Não. […] Deveríamos falar em doçaria tradicional portuguesa ou, num conceito mais académico, doçaria histórica portuguesa» .

Todas estas noções e conclusões, estão expressas na tese defendida em Dezembro, na Universidade de Coimbra, sob o titulo: «A doçaria portuguesa – Origens de um património alimentar.»

Diz, ainda, a Lusa baseada no autor: «(…) ao longo da obra com cerca de 700 páginas, o investigador discorre sobre as origens do património doceiro nacional, centrando-se entre o século XV e XVIII, onde considera estarem as bases da doçaria tradicional que ainda hoje prevalece, com algum espaço dedicado às dinâmicas que levaram à criação do conceito de doçaria conventual.»

Em Portugal, assevera João Pedro Gomes, (…) «a doçaria começa a desenvolver-se a partir do século XV, acompanhando o ritmo de produção de açúcar pelo país (…). No final do século XVI, Portugal  torna-se o principal produtor mundial.»

A «adolescência da doçaria» com «a febre pelos doces feitos de ovos» começa a ser usada e abusada nas mesas, ao ponto de levar D. Sebastião a pedir às pessoas para não comerem doces.»

João Pedro Gomes admite que os conventos poderão ter tido algum papel na passagem de informação de receitas, mas volta a vincar que essa prática era comum na sociedade — o secretismo em torno do receituário é algo mais contemporâneo.

Muito mais dirá o autor. Estou convicto de que a sua obra histórica, desmitifica essa corrente, hoje prevalecente, atribuidora de um contributo desmesurado dos conventos na concepção criativa do património doceiro nacional. A história de cada doce não emana, premeditadamente, dos conventos. Ela é fruto de um trabalho social alargado e criativo.

 

 

 

 


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