17 de Junho de 2024 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: Dicas da arte da guerra para Putin

10 de Março 2022

O pioneiro, dos grandes precursores da estratégia, é Sun Tzu, pensador Chinês, que se admite ter vivido no séc. V a.C., cuja série de princípios foram por ele doados num livro, A arte da guerra, conformando um verdadeiro raciocínio estratégico moderno.

Com Sun Tzu a estratégia passou a poder contar, pelo menos em teoria, com o contributo de diversos instrumentos de coação distintos do militar; no seu livro é mencionado que “a perfeição suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem combater” e que “obter uma centena de vitórias, numa centena de batalhas não é o cúmulo da habilidade. Dominar o inimigo sem o combater, isso sim, é o cúmulo da habilidade”.

As grandes formulações teóricas sobre a Guerra surgiram no início do século XIX,

Este período atinge o apogeu com o General prussiano Carl Von Clausewitz. Transformaram-no em autor paradigmático da guerra, quase sempre citado pelos estudiosos da arte.

Carl Von Clausewitz escreveu um livro fundamental, Da Guerra. Clausewitz foi o introdutor do pensamento moderno sobre as Ciências Militares. Lenine chegou a classificar Clausewitz como um dos maiores e mais profundos escritores militares. Em Clausewitz há também a combinação da filosofia com a experiência. É o sociólogo militar (a guerra é um fenómeno social) a inovar na doutrina da guerra e na conceptualização estratégico-táctica: supremacia da política sobre a instituição militar, a combinação de várias armas, o imprevisto e o acaso, a diferença entre estratégia e táctica (a estratégia dirige a tática executa) e o papel do povo.

Clausewitz ilustra e reflete a forma como as propensões primordiais actuam numa guerra “real” do mundo moderno: ao povo pertence o aspecto da violência, do rancor e da inimizade; ao Comandante e ao seu exército concerne o aspeto da criatividade e da incerteza do combate; ao governo toca o aspeto de subordinação, pois a guerra no mundo real está subordinada ao racional do Estado.

Em todo o texto de Clausewitz perpassa a preocupação com a contingência, os eventos influenciam-se mutuamente, e causas particulares, mesmo mínimas, determinam o resultado final que não se submete facilmente a ser previsto, ou estimado, por um algoritmo.

Como já havia exposto a guerra é um fenómeno subordinado e instrumentalizado ao jogo político. É somente a política que pode transformar o seu espantoso carácter destrutivo num mero instrumento. Porém, adverte, a política também pode agir no sentido oposto: “Se a guerra é parte da política, a política vai determinar o seu carácter. Se a política se torna mais ambiciosa e vigorosa, assim será a guerra, e este pressuposto pode atingir a conjuntura onde a guerra atinge a sua forma absoluta”. Então, Putin será sempre o culpado dos resultados desta guerra.

Depois da II Guerra Mundial o conceito de estratégia torna-se mais abrangente.

A conceitualização feita em redor da ideia de estratégia permite afirmar o seu comportamento como “inteligência em ação” logo, está-se no campo da estratégia aplicada, que pode segmentar-se em diversas formas de intervenção: coação por meios predominantemente militares, por meios predominantemente não-militares e por agentes indiretos. Por exemplo, a coação do fraco pelo forte. Permita-se dizer haver hoje uma “estratégia científica”, que vai muito para além da prática e da “estratégia instintiva”.

Na década de Oitenta começou a falar-se, nos Estados Unidos da América, em revolution in military affairs que originou a conhecida sigla RMA, traduzida em Portugal como “Revolução nas Questões Militares”.

A RAM assenta, à partida, numa vincada dissimetria, pondo em confronto fortes e fracos. O fraco, ao percepcionar não poder confrontar-se com o forte com meios parecidos aos deste, vê-se obrigado a optar por processos diferentes amoldados aos débeis meios ao seu alcance, capazes de atingirem o forte nas suas vulnerabilidades, o que dá lugar a estratégias assimétricas. A dissimetria do forte gera assimetria por parte do fraco.

Esta teorização, que aqui interessa sobremaneira, tem sido escorada e abundantemente demonstrada, em conflitos insurreccionais, resistência generalizada contra invasores, guerras de guerrilha e terrorismo organizado.

Veja-se o caso da Ucrânia.


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