1 de Outubro de 2020 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

TESTEMUNHOS: Corporativismo ou Lóbis?

15 de Novembro 2019

Só pessoas como eu, sabem o que custa ver morrer um neto numa maternidade. Os instantes de dor que se seguem, depois, continuam, ano após ano, e eternizam-se, são indizíveis. E a mãe, minha filha, como a enxergo a envelhecer e a pensar naquele momento fatídico? Triste e muito preocupado.

O nascimento de uma criança sem rosto será, pelo horror e pela impotência dos pais, também, um momento lancinante e inesquecível. E, neste caso, segundo se sabe, não foi um caso de pura negligência médica em que a justiça teria, ou deveria agir. Pelo sabido, já houve muitas queixas na Ordem dos Médicos do seu associado, dito especialista em ecografias que deveria detetar o problema. Sim. “…Tudo foi arquivado ou continua pendente. Sucessivamente arquivado, eternamente pendente. A imprensa traz, relatos de mães e o padrão é sempre o mesmo, desleixo e trabalho feito à pressa. O médico desta clínica, onde tudo se passou, já havia prevaricado, alguns se queixaram demorou, demorou e o resultado foi este”…, são palavras sábias de Daniel Oliveira, num artigo que designou, apropriadamente, por “Corporação”.

“Sem perdão”, diz João Vieira Pereira, no Público.

Não há desculpa possível para que após cinco queixas, algumas há cinco anos, o dito médico continuasse a exercer, isto porque alguém se esqueceu ou não teve tempo de analisar os processos. E é, agora, que a Ordem dos Médicos revela que menos de 20 por cento dos 850 do Serviço Nacional de Saúde tem aptidão para fazer ecografias, sobretudo, no segundo trimestre de gravidez!!! Tarde.

“Indignações”, é título de um comentário de Miguel de Sousa Tavares. Acrescenta muito, no que diz respeita ao assunto:

[…para sermos rigorosos, é preciso dizer que o poder de auto-regulação disciplinar não é exclusivo dos médicos entre nós. Também dele beneficiam polícias, militares, magistrados, advogados e algumas outras classes profissionais. Trata-se de uma preciosa herança do Estado corporativo, instituído por Salazar nos idos de 30, e que se manteve incólume ao longo de quase 50 anos de democracia. Somos, por definição, um país onde a irresponsabilidade profissional, a proteção entre pares e a impunidade daí resultante são a regra do jogo. Quem beneficia de fórum profissional próprio, e reservado safa-se quase sempre; quem não beneficia está lixado, pois muitas vezes abate-se sobre ele todo o rigor da justiça, para que “sirva de exemplo”…]

Embora não concorde, integralmente, com o discurso, penso não fazer mal nenhum, nestas circunstâncias, que ele apareça. É, ainda por cima, corajoso.


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