15 de Abril de 2024 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Testemunhos: Casos e «Casinhos»

25 de Novembro 2022

Estas últimas semanas têm vindo a público inúmeros casos de possível corrupção que transformam, quase sempre, os prevaricadores em arguidos. De qualquer maneira, venham a ser arguidos ou não arguidos, ministros, secretários de estado, autarcas, membros importantes de partidos políticos estão à tona dos órgãos de comunicação social.

Realça-se de entre todos, pela sua possível culpabilidade e ridicularidade, o Presidente da Câmara Municipal de Caminha que quis refulgir no seu cargo à custa de dinheiros desbaratados, associados a indivíduos de duvidosa índole.

´Quase todos os dias confrontamo-nos com casos e «casinhos» que põem em risco a credibilidade dos nossos políticos, numa altura em que se vive uma crise nacional e internacional que alimenta pobres e homens e mulheres de rua, a única habitação que, por enquanto, lhes é oferecida gratuitamente.

Dei-me conta, quando ia persistir neste texto de desgraças, de uma crónica de António Lobo Antunes (passando a reproduzi-la, em parte), e que nos diz, desassombradamente, tudo ou quase tudo sobre o assunto.

Afirma, sem peias, António Lobo António:

“A sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão: dirigem os países, as grandes empresas, os ministérios, etc. Eu oiço-os falar e pasmo não haver praticamente um único líder que não seja pateta, um único discurso que não seja um rol de lugares comuns. Mas os que giram em torno deles não são melhores. Desconhecemos até os nossos grandes homens: quem leu Camões por exemplo? Quase ninguém. Quem sabe alguma coisa sobre Afonso de Albuquerque? Mas todos os dias há paleios cretinos acerca de futebol em quase todos os canais. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.  (…).

Dá o exemplo de Churchill

(…) Reparem, por exemplo, em Churchill. Quando tudo estava normal, pacífico, calmo, não o queriam como governante. Nas situações extremas, quando era necessário um homem corajoso, lúcido, clarividente, imaginativo, iam a correr buscá-lo. Os homens excepcionais servem apenas para situações excepcionais, pois são os únicos capazes de as resolverem. Desaparece a situação excepcional e prescindimos deles (…)

Refere-se, por fim, à criatividade:

(…) A criatividade foi sempre uma ameaça tremenda: e então entronizamos meios-artistas, meios-cientistas, meios-escritores. Claro que há aqueles malucos como Picasso ou Miró e necessitamos de os ter no Zoológico do nosso espírito embora entreguemos o nosso dinheiro a imbecis oportunistas a que chamamos gestores. E, claro, os gestores gastam mais do que gerem, com o seu português horrível e a sua habilidade de vendedores ambulantes: Porquê? Porque nos sossegam. Salazar sossegava. De Gaulle, goste-se dele ou não, inquietava. Eu faria um único teste aos políticos, aos administradores, a essa gentinha. Um teste ao seu sentido de humor. Apontem-me um que o tenha. Um só. Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam, Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. (…).

[ANTÓNIO LOBO ANTUNES, Enviado do Yahoo Mail para Android.].

 

 


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