30 de Maio de 2024 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Testemunhos: Aqui Tudo Se Esvai; Tudo Se Esfuma.

28 de Outubro 2022

Todos os anos, nos finais de Novembro, faço uma viagem até à Guarda e às Amoreiras do Mondego, terras onde passei grande parte da minha infância e juventude.

Na Guarda saboreio passear por aquelas ruas que tantas vezes calcorreei, hoje bem diferentes, é certo, mas que me fazem lembrar partes distantes da minha vida, por vezes já esquecidas, uma vida no passado, lugares cheios de saberes, de sabores, palavras, personagens mortas. As vivas já não conheço.

No dia seguinte desço o Vale do Mondego e vou até ao Cemitério das Amoreiras do Mondego onde, apesar de mortas, estão vivas para mim algumas das pessoas que me deram mais carinho, que me ensinaram a crescer, a saber e a dizer, – os meus avós e a minha mãe. Levo flores, enfeito o jazigo onde se encontram, e vejo-os olhando para mim com o mesmo sorriso de sempre. Naquele silêncio indescritível, por ser mesmo silêncio, ali permaneço recordando memórias que são os tesouros da minha vida. Como estava esquecido de quase tudo! Deixo aquele lugar, agora perfumado, não sem antes postar um poema, numa das urnas, para quebrar o sossego e os deixar a recitar. Digo adeus e parto para nova viagem.

Para o ano, quem sabe, cá estarei novamente.

“Vivo, talvez demais, entre coisas antigas. Se fosse só isso seria uma experiência antiquária ou uma curiosidade erudita que não faria mal a ninguém, a não ser a mim próprio. Mas a questão é um pouco mais complicada, porque não é apenas uma vida no passado. Na verdade, é mais do que isso: é que acho cada vez mais interessantes esses lugares repletos de saberes, palavras, por comparação com o cafarnaum da actualidade, pessoas, políticas, textos, produtos culturais.” (adap. Pacheco, P.J.) que enchem o meu vazio de nada, mesmo de nadas.

 Aqui tudo se esvai,

Tudo se esfuma.

Por entre os frios mármores,

Os corvos da morte esvoaçam,

Sepultando paixões e desamores.

Gélida é a bruma,

 Que cai, cai, cai,

E vai, sempre vai,

Reavivando a memória,

Às gentes que nos finados,

Passeiam as vaidades da história,

P´los buracos já lhes destinados.


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