17 de Junho de 2024 | Coimbra
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Ser uma Helena ou bela como Helena

14 de Janeiro 2022

Helena nasce da relação de Zeus (ou Júpiter dos Romanos) com Leda, esposa do rei de Esparta Tíndaro. Seduzira-a o deus tomando a forma de cisne. Irmã ou meia irmã de Clitemnestra, Castor e Pólux (os famosos Dioscuros, ‘filhos de Zeus’), Helena viveu na corte de Esparta os seus tempos de criança e aí cresceu. Mulher de grande beleza, a tal caraterística sistematicamente se refere a tradição mítica e literária que também fala de ter sido pretendida e requestada por diversos heróis e reis de então, vindos de toda a Hélade. Ao chegar à altura do seu casamento, aconselhado pelo astucioso Ulisses, Tíndaro fez jurar a todos os pretendentes que guardariam fidelidade e apoiariam o marido que ela escolhesse, se por alguém fosse raptada. Helena pendeu para Menelau, que se tornou rei de Esparta.

A Esparta a foi buscar Páris, depois de, no Julgamento do Monte Ida, ter entregado o pomo de ouro, como já foi dito em texto anterior, a Afrodite ou Vénus por esta lhe ter prometido o amor da mulher mais bela – que ao fim e ao cabo era Helena. Vimo-lo também que, em consequência disso, se desencadeou a longa Guerra de Troia – uma querela que será causa de morte e sofrimentos sem conta, quer para Gregos, quer para Troianos, e que vai terminar com a destruição da cidade. Apesar disso o velho rei de Troia, Príamo, homem sensato e prudente, considera na Ilíada, que uma mulher como Helena, de uma beleza semelhante à das deusas, tudo isso justifica. Ao ver Helena aproximar-se sobre o adarve das muralhas, Príamo, que com outros anciãos observava o combate, profere estas palavras (3. 156-159), que aqui dou em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira:

Que os Troianos e os Aqueus de belas cnémides há tanto tempo

sofram tanto por uma mulher assim, ninguém pode censurar.

Se olharmos para ela, infunde temor sua parecença com as deusas

Imortais!

Helena estivera na origem do longo cerco da cidade, causara a morte de tantos Troianos e filhos seus, trouxera tanto sofrimento; e, apesar disso, o rei considera todos esses males justificáveis por uma mulher assim bela.

Helena tem a noção da sua beleza e sabe dela fazer uso, no momento adequado. Por exemplo, funcionou mais uma vez, após a conquista de Troia. Menelau procurou-a no palácio, disposto a dar-lhe a morte… Porém, ao chegar junto dela e ao vê-la meio desnuda e de peito descoberto, sucumbiu ante os seus encantos e perdoou-lhe… E os dois regressaram juntos a Esparta.

Helena é em Homero a aspiração à beleza suprema, ou seja o eros. Embora ame Páris, sente que procedeu mal, ao abandonar o marido, a filha, as amigas para fugir com o príncipe troiano (Ilíada 3. 172-176). Como tantos homens e mulheres que vivem divididos entre o dever e a paixão, balança sem cessar entre o arrependimento e o seu amor. Este acaba sempre por vencer (Ilíada 3. 421-447). E desse modo Helena tornou-se símbolo de beleza e o seu nome passou a nome comum para designar uma mulher que se distingue pela beleza, encantos e sedução. Daí que encontremos expressões deste género: bela como Helena ou é uma helena, com a transformação do antropónimo em substantivo comum.

E a tal propósito, duas notas com algum paralelismo com o que acaba de dizer-se. Para o sexo masculino se não sentir discriminado, se Helena aparecia, vimo-lo acima, como símbolo de beleza para a mulher, também os homens possuíam o seu paradigma – Adónis, utilizado numa expressão que pretende designar um jovem com uma beleza fora do comum. Assim não será raro lermos ou ouvirmos dizer fulano é um Adónis ou belo como Adónis, embora a expressão pressuponha uma beleza delicada e de modo algum se adapte a um corpo másculo. E deste modo, de Adónis, deriva o substantivo comum adónis e o verbo adonisar(-se), com o significado de “enfeitar(-se), ser ou tornar(-se) elegante, presumido”.

Para designar um efebo másculo, forte, ginasticado, vai buscar-se outro modelo ao mito greco-romano – o deus Apolo que encontramos em expressões como ser um apolo, ou seja, “ser belo e forte”.


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