25 de Setembro de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Sacrifício

9 de Abril 2020

O silêncio começa já a ferir cada dia que passa de uma primavera onde toda a harmonia de sons e de cores não encontra o elo contagiante entre o Homem e um céu forrado de negro. Uma primavera diferente onde não parece haver sintonia entre os seres de um mundo que vive oprimido e receoso, como quem espera um inimigo. Dádiva de qualquer exilado é poder beber e matar a sede do ânimo entre montes e vales, no entanto não se consegue ver na mesma ânsia a simples e opulenta montra de cores, o amarelo tosco da carqueja, das giestas e dos tojos, os lilases e arroxeados da urze, dos lírios e do rosmaninho, o branco singelo das estevas e das flores dos sabugueiros, que se debruçam pelas margens dos ribeiros onde a água corre num canto mais forte e mais límpido fazendo-nos ler na sua corrente, “Eu sou a fonte da vida”. As aves circundam os céus numa liberdade que já não sentiam há muito, seres alados que nos provam que o mundo não é nosso nem deles. Hoje haverá pessoas a agradecer as coisas mais simples, a refletirem a vida e qual é o seu significado. Se há neste momento um abrigo de alento e de alegria é sem dúvida esta natureza rural e vadia onde também podemos afirmar que já não há “cantinhos do céu”.

Vê-se mais gente por estas aldeias semeadas como ninhos nas franjas destas serras, do que numa cidade inteira. A realidade de um mundo que parou, numa imobilidade feroz. O espetáculo das lavouras e das sementeiras é louvado agora por quem nunca o louvou, por quem agora começa a dar valor a uma semente, a uma planta, a uma cabeça de gado, ao trabalho do lavrador. De leira em leira o homem continua a amanhar a Terra, não deixou de semear, de mondar, de sachar, “enquanto houver saúde”.

No afastamento das comunidades sente-se a falta da voz do povo, dos “bons dias” e “santas noutes”, que são agora desejados à distância de uma janela ou de um carreiro distante, dos seus usos e tradições que se conseguem assim quebrar de um dia para o outro.

Este ano não se sarrou a velha, uso alvoraçado e pagão que deixou por descanso as condenadas. Este ano não se cantou às almas santas, transformando esse canto secular em rosários saudosos que se rezaram ao serão por alma de todos os que já viveram o “fim do mundo”. Este ano não se benzem os ramos tão carregados de louro e alecrim que saram feridas e acalmam trovoadas pelo ano fora, não se viverá a via crúcis em procissões de fervor e compaixão, não ecoarão os chocalhos e as campainhas na noite de aleluia pelas naves frias das igrejas, não se receberá o compasso pascal que nos enche as salas de luz e de alegria numa fraternidade e numa devoção que todo o ano ansiamos. Não correrão os mais pequenos atrás das amêndoas de casa em casa, como passaritos vivazes que decoram de alegria estes lugarejos entregues à solidão dos restantes dias. Este ano a quaresma, a paixão e a Páscoa vivem-se no mais profundo sacrifício, o de estar longe de quem amamos e estimamos, só isso já é a maior abstinência para a alma, seja de crente ou ateu.

É tempo de seguir vivendo com o que temos, acreditando que tudo passará, mas convictos que o que perdemos este ano, não se compensará para o próximo, mesmo que tudo regresse. E bem se sabe que tudo o que passa, deixa marcas.

As ruas andam agora desertas, moribundas e esquisitas. O povo sai à rua de vez em vez. Um cruzeiro no alto de um monte, nas quelhas dos caminhos um nicho, onde as alminhas bracejam num fogo de onde Nosso Senhor resgata do pecado aquelas figuras tão bem pintadas pelas mãos de um artista anónimo. Erguem os braços perante a cruz numa súplica final como incutindo respeito e pavor ao Homem, esse Homem do povo que sempre que passa diante de umas alminhas se benze agora com mais força.

“À porta das almas santas

Bate deus a toda a hora,

Almas santas lhe perguntam

Ó meu deus que quereis agora.”


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