27 de Outubro de 2021 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Roteiros Omissos

26 de Fevereiro 2021

O caminho faz-se por boa estrada, no entanto se o carro segue em bom alcatrão os olhos fogem para as veredas e carreiros que traçam o Vale do Ceira, entre as portas da cidade de Coimbra e as franjas da serra da Lousã. Tal como outras nacionais são boas antologias de gentes e paisagens, também a estrada da Beira nos brinda com a sua identidade natural e humana entre os territórios que atravessa. As penedias vão ficando para trás, num caminho com feições diferentes a cada estação, em que o serpentear das águas nos vai direcionando. Num desenho escarpeado, conquistam pela heroicidade da natureza as manchas de mata nativa, onde a flora rompe da rocha mãe. A fauna toma conta dos locais mais ermos, penhascos e valeiros profundos onde o céu e a escuridão torneiam a claridade dos dias. As aves acompanham-nos, numa ode ornitológica de que o Vale do Ceira dispõe desde a nascente das suas águas. Entre os arroxeados da urze, os amarelos vivos das mimosas, da giesta e da áspera carqueja, a paleta compõe-se com os tons de verde que oliveiras e zambujeiros circundam ao longo de todo um traçado, onde o Homem golpeou montanhas por necessidade de acesso e aproximação entre o Portugal interiorizado e o litoral.

É neste poema de cores ásperas e de ares macios que o Ceira vai cantando até à sua diluição num rio bem português. As comunidades foram-se instalando à sua beira como em qualquer lugar onde a abundância de água se aproveitara para tantos fins. Pontes, noras, engenhos de linho, pisões, serrações, lagares, azenhas e moinhos, são muitas as construções primitivas que afirmam a identidade rural e económica destes lugares entre o rio e suas ribeiras adjacentes. Infelizmente, hoje em parte ruínas da presença e aproveitamento humano, gente que se criou à borda de água aprendendo a viver e a usufruir dela. Entre montes e socalcos onde o amanho da terra como fonte de subsistência e económica, salvando neste caso a atividade viveirista de fruteiras, são a prova de que o lavrador é o “jardineiro da paisagem”, aquele que lhe conhece todas as plantas, moiteiras e contornos. Esse mesmo homem que outrora defendia as áreas naturais com relevância como é o exemplo da criação de gado e o pastoreio, próprio ou comunitário que deveras se perdeu nestas localidades. Assim, o ecossistema silvo agrícola tem vindo a degradar-se como em muitas outras regiões onde perante o problema se colocam sempre as mesmas questões e se atiram as mesmas culpas. Temas que não se podem resumir em poucos parágrafos.

Se nos tempos que vivemos a natureza tem dos maiores potenciais de nos presentear e alentar, pena que o Vale do Ceira seja tal como outras bacias hidrográficas mais ligeiras, desprezado em parte pelas entidades responsáveis. Os próprios proprietários também deveriam refletir a questão. A ordenação em todo o seu percurso, ou parte dele, a limpeza e manutenção ripícola, assim como implementação de miradouros, caminhos entre outras dinâmicas de contacto e observação que por vezes só se verificam no interior das vilas, são algumas das necessidades em prática. Por fim o museu vivo que só as populações podem manter, sendo incentivadas pelas autarquias e alertadas por quem deseja uma paisagem valorizada e preservada.


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