17 de Abril de 2024 | Coimbra
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Rita Ribeiro: 50 anos de carreira e de “entusiasmo pela vida”

22 de Março 2024

Cresceu no meio do público. Filha do actor Curado Ribeiro e da actriz Maria José, Rita Ribeiro parecia já ter o destino traçado. Contudo, o seu percurso profissional, – que resulta, hoje, em cinco décadas de carreira -, desenrolou-se naturalmente. Ao contrário do trajeto dos pais, a sua estreia aconteceu na área da música com os Green Windows. O teatro chega, posteriormente, com a ópera rock Godspell, a primeira em Portugal. Passou pelo teatro de revista, fez comédia, drama, televisão e ainda cantou pelo país fora. A poucos dias do Dia Mundial do Teatro, que se assinala a 27 deste mês, Rita Ribeiro recorda os 50 anos de um percurso intenso, entusiasta e marcado pelo amor à profissão.

 

 

O Despertar [OD]: Que sonhos tinha a jovem Rita Ribeiro quando, aos 20 anos, se estreia no teatro com a peça “Godspell”?

Rita Ribeiro [RR]: Na verdade, eu comecei, aos 19 anos, a cantar nos Green Windows, com o José Cid. Em 1974, surgiu a hipótese de irmos ao Festival da Canção. Ganhou o Paulo de Carvalho e, nós, ficámos em segundo, terceiro e quarto lugar, porque concorremos com três músicas: os Green Windows, com “No dia em que o rei fez anos” e “Imagens” e, o José Cid, com “A Rosa Que Te Dei”. Eu nunca sonhei nada disto. O que me aconteceu não foi uma coisa planeada. Foi uma jovem que teve uma infância feliz e uma adolescência menos feliz devido ao divórcio dos pais; que, depois, foi para um colégio interno; e que, depois, esteve doente. Quando deixei de estar doente, nunca mais ninguém me agarrou. Voei sempre por aí fora. Aliás, foi uma coisa que os meus pais me deram na infância: deixaram-me sempre voar e sonhar. Eu nasci dentro do teatro e da arte. Nasci já a ser famosa, porque eu era a filha do Curado Ribeiro e da Maria José, portanto, eu andava na rua e toda a gente conhecia. No entanto, não era algo que eu sonhasse. Aconteceu tudo de forma natural. Comecei por cantar e, aos 20 anos, quando a minha filha Joana tinha dois meses, fui a casting para a ópera rock “Godspell”.

[OD]: Essa peça, pela sua particularidade, foi determinante para o percurso que veio a trilhar?
[RR]: Aos 14 anos, eu já tinha estado em palco. Tinha feito duas figurações e tinha-me sentido bem. Estava numa idade em que estudava o bailado e escultura, ou seja, estava muito inebriada com outras coisas. Não senti o que senti, posteriormente, aos 20 anos, quando fiz o “Godspell”. Nesse momento, senti-me à vontade dentro do palco. Eu sou, e sempre fui, uma pessoa tímida e aquilo que eu senti no teatro foi que eu podia ser aquilo que eu quisesse. O “Godspell” também foi um projecto muito apaixonante para todos e que veio a seguir ao 25 de Abril. Além disso, nunca se tinha feito nenhuma ópera rock em Portugal. Foi um marco muito importante no teatro no nosso país. Não foi um êxito de bilheteira, mas foi um êxito muito marcante a nível de qualidade.

[CP]: Como referiu, em 1974, participa no Festival RTP da Canção. Estas experiências contribuíram para uma carreira onde a música e o teatro deram, tantas vezes, as mãos?
[RR]: Possivelmente, sim. Não vale a pena perguntarem se gosto mais de teatro ou música. Eu gosto de ser criativa. Até porque eu acho que a vida é um acto criativo. Toda a gente que faz bem a sua profissão é um artista. Curiosamente, eu vi o espetáculo “Godspell”, em Londres, aos 17 anos. Os meus pais eram de teatro nacional. Portanto, eu não tinha uma grande referência de teatro musical ou de revista. Quando vi teatro musical pensei “é disto que eu gosto”. Apesar de que, hoje em dia, eu gosto de fazer tudo. Tanto gosto de fazer televisão, como gosto de fazer teatro e cantar. São amores diferentes.

[OD]: Sentiu, em algum momento, que deveria dedicar-se a apenas uma das vertentes?
[RR]: Não. A base do meu entusiasmo é a vida. Digamos que, em Portugal, 50 anos de carreira não é uma coisa muito comum. Tive sete produtoras de espetáculo. A Magia Abrangente é a mais recente. Tive três restaurantes e uma loja de roupa, porque eu arregaçava mangas e acho que podemos, realmente, ser criativos em tudo o que fazemos. Tudo tem a sua arte, mas nunca pensei escolher isto ou aquilo. Claro que tive momentos na minha vida, como toda a gente, existenciais em que perguntei a mim mesma “será que estou no meu caminho?”, mas chegada aos 68 anos, eu vejo que estive sempre no meu caminho. Felizmente, está tudo certo, sempre. Nós estamos sempre no lugar certo, à hora certa, e com as pessoas certas.

 

[OD]: Ser filha de dois actores consagrados teve peso na hora de escolher o caminho?

[RR]: Não, não teve peso nenhum. O que teve peso foi aquilo que eu vivi na minha infância. Eu nunca segui esta estrada a pensar na fama, porque não tem nada a ver com isso. Tem mesmo a ver com paixão, com amor. Eu vivo intensamente a minha profissão. Eu amo aquilo que faço. Eu digo como a Fernanda Montenegro, quando lhe pediram para ela dar um conselho a um jovem actor, que só vem para esta arte quem, realmente, não consegue viver sem ela. Não é pela fama, porque isso é muito efémero. A vida, já de si, é muito efémera. A minha religião é o amor e aquilo que eu faço é amor.

[OD]: É esse amor que nos ajuda a sermos melhores profissionais?

[RR]: Claro. É mesmo o amor que nos ajuda a ser melhores em tudo, não só profissionalmente, como seres humanos também.

[OD]: Passados 50 anos, que sentimento a assalta quando recorda este trajecto?

[RR]: Gratidão. Por tudo. Por a vida me ter dado este percurso; por eu ter aproveitado as oportunidades; por ter tido coragem. Gratidão pelo público, que me acompanhou sempre. Gratidão, acima de tudo, pela ousadia que eu também tive sempre em permanecer, em nunca desistir, em ter coragem.

[OD]: Neste meio século fez teatro de revista, comédia, drama, televisão e ainda cantou muitas canções. Consegue destacar alguns dos projetos que a marcaram mais?

[RR]: A “Maria Callas”, de Filipe La Féria, foi um momento muito alto do meu percurso. Eu não tive os filhos que desejava ter por causa da minha carreira. Acho que a família e os amigos são uma base muito sólida para qualquer ser humano. É das coisas que mais saúde e bem- estar nos pode dar: são as relações que nos ligam verdadeiramente à vida. Eu estive 22 anos a fazer teatro todas as noites e, uma vez, disse que só ia parar se ficasse grávida. Foi o que aconteceu. Fiquei grávida da minha filha Maria, a mais nova, e estive com ela no primeiro ano. Deixei mesmo de trabalhar. Aos 10 meses da Maria, veio o convite para a “Maria Callas”. Eu investi muito nesse projecto. Em Portugal, somos muito preconceituosos em relação aos actores. Somos muito elitistas. O actor que faz revista e/ou teatro musical é, muitas vezes, posto à margem de outros projectos. Nessa altura, quando souberam que eu ia fazer a “Maria Callas”, diziam muito que eu não ia conseguir e isso deu-me ainda mais força para o projecto.

[OD]: No próximo dia 27 assinala-se o Dia Mundial do Teatro. O país valoriza o património artístico e cultural que temos?

[RR]: Eu acho que sim. Se eu tivesse muita razão de queixa, não tinha feito 50 anos de carreira. Não me coloco num lugar de vítima, de maneira nenhuma. É evidente que se me perguntar se a cultura é protegida, não é. Isso é um facto, mas não deixo de fazer as coisas por isso. Este ano, eu já montei o espectáculo “Jackpot”, uma comédia. Agora, vou montar o “Entretanto”, com a minha filha Maria, que é um espectáculo completamente diferente. Tem muito a ver com as doenças mentais. O terceiro, é um monólogo que serve de homenagem aos actores. É autobiográfico. Eu pedi apoio para os três espectáculos, deram-me só para um, mas deram. Portanto, é só uma questão de gestão. Há uma coisa da qual ainda não desisti: ter o espaço Curado Ribeiro, que será de homenagem ao meu pai, mas também a olhar para o futuro. A minha filha Maria é actriz, escolheu o nome do avô, Maria Curado Ribeiro, e é isso que eu quero deixar também como legado. Um espaço para ela poder não andar na vida a fazer o que eu sempre fiz: a procurar um espaço para fazer os meus espectáculos. Também ambiciono um centro de acolhimento para os colegas; e dar aulas. Já tive uma escola de teatro e gostava de voltar a ter um lugar onde eu pudesse passar a experiência. Quando se chega a uma certa altura é um desperdício não o fazermos.

[OD]: E o público? Tem estado no teatro?

[RR]: Sim, tem estado sempre presente. Conquistar as pessoas e sentir que elas estão connosco e que fazem silêncio, quando é preciso fazê-lo, que se comovem connosco e que aplaudem, no final, de pé, é muito gratificante.

[OD]: Tem sentido o carinho desse público ao longo destas cinco décadas?

[RR]: Eu já nasci com esse carinho do público. As pessoas acarinhavam muito os meus pais. O meu pai foi um galã. Todas as mulheres estiveram apaixonadas por ele. A minha mãe era uma grande actriz e uma pessoa maravilhosa. Como reflexo disso, eu já herdei esse amor do público e é muito giro ver que a minha filha Maria vive o mesmo. Quando está a representar ainda há pessoas que falam do avô. Eu estou muito grata. A vida tem-me dado momentos maravilhosos.

[OD]: É esse carinho que a vai continuar a alimentar ao longo da próxima década?

[RR]: É esse carinho do público, mas, fundamentalmente, o amor que eu tenho pela vida e por mim. A coisa mais importante para mim é ter entusiasmo pela vida. Quando eu deixar de ter entusiasmo, já posso passar para outra dimensão. É porque já não tenho cá nada a aprender ou ensinar.


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