AMBIENTE // Inaugurada em meados de abril do ano passado, a Reútil pretende consciencializar a cidade de Coimbra para a importância da sustentabilidade. A loja distingue-se pela aposta na moda em segunda mão, trabalhando em parceria com instituições de cariz solidário com quem troca bens essenciais por roupa.
Sob o mote “2.ª mão, 1.ª opção!”, a loja “Reútil” incentiva a comunidade a dar uma segunda vida aos artigos usados. O espaço nasce pelas mãos de Beatriz Ferreira, depois de uma visita à Bélgica onde ficou a conhecer o mundo da moda em segunda mão. “Quando regressei a Portugal, percebi que aqui era um conceito que estava pouco desenvolvido nas pequenas cidades. Então senti necessidade de trazer esse estilo de vida para Coimbra”, recorda, em declarações ao jornal “O Despertar”.
Desde peças de vestuário para o sexo feminino e masculino, a acessórios e carteiras, a loja vende artigos para todos os gostos. E até o design do espaço foi concebido a partir de materiais reaproveitados. “O espelho que as pessoas utilizam para verem como lhes fica a roupa, por exemplo, é usado e foi decorado com botões que pertenciam às minhas avós e bisavós”, conta Beatriz Ferreira. Além disso, todos os charriots são feitos de ferro de uma antiga estufa de caracóis que a tempestade Leslie destruiu. Também, em outros tempos, as caixas que, agora, servem de gavetas foram utilizadas para o transporte de fruta.
O foco na sustentabilidade estende-se ainda ao nome do projeto. A responsável admite que chegar à denominação “Reútil” não foi um processo fácil. “Queríamos muito que, quando se lesse o nome, automaticamente se percebesse do que é que se tratava, ou seja, que é um comércio de reutilização”, afirma, acrescentando que, depois de muita reflexão, a escolha pareceu a certa. “É um nome curtinho, em português e que fica na memória”, refere.
Projeto tem componente solidária
A sustentabilidade está presente em cada detalhe da “Reútil”, inclusive, na forma como os artigos chegam à loja para posterior venda. O projeto conta com várias parcerias com instituições de cariz solidário da região Centro. “O que as pessoas mais têm facilidade de dar a estas associações é roupa. Elas ficam atolhadas de peças que, eventualmente, se vão estragar, porque nem sempre os armazéns têm as melhores condições”, explica Beatriz Ferreira.
Nesse sentido, como forma de dar uma nova oportunidade a esses artigos, a “Reútil” adquire-os em troca de bens que as instituições necessitam, nomeadamente, alimentos e produtos de higiene. “Agregamos o útil ao agradável. E eu acho que, se as pessoas se interessarem, será um dos fatores que as fará procurar e gostar do nosso espaço”, sublinha.
De acordo com a jovem, a grande maioria das pessoas não têm noção da quantidade de roupa que pode ser reaproveitada. “Muitas vezes, temos muita roupa e, na realidade, acabamos por usar apenas 20/30 peças. A restante fica na gaveta”, admite, lamentando que “quando damos essa roupa, o nosso ciclo é comprar mais”, o que motiva as empresas de fast fashion a produzir a uma maior velocidade.
“São causas ambientais que vão desgastar ainda mais o planeta”, alerta, salientando que “não faz sentido desgastar o planeta com a criação de coisas novas, quando nós já temos tanta coisa que pode ser reaproveitada”.
Jovens são quem mais procura
Desde abril do ano passado à frente da “Reútil”, Beatriz Ferreira não tem dúvidas de que cada vez mais os portugueses vão tendo consciência da necessidade de reciclar e reutilizar. “É necessário sensibilizar, em primeiro lugar, para as pessoas perceberem o quão destrutiva pode ser a falta de consciência”, realça. Isto porque, na sua opinião, “só assim as pessoas vão abraçar estes novos projetos e estas novas formas de reutilizar as coisas”.
Apesar de passarem pela loja todos os tipos de clientes, – desde os mais novos aos mais velhos -, “há uma camada jovem que está mais receptiva e aberta a este tipo de conceito”, adianta, garantindo que “muitos deles vão mesmo ao Google procurar por lojas de roupa em segunda mão, em Coimbra”. Uma realidade reveladora da necessidade de existirem espaços como a “Reútil” na cidade.
“Eu espero, honestamante, que venham a existir mais. Há lugar para todos e um conceito como este é sempre importante”, reitera Beatriz Ferreira. Um conceito que se estende para lá da venda de roupa em segunda mão e que se preocupa também em criar hábitos de consumo conscientes. “Também é muito importante esse trabalho de consciência que fazemos com os clientes. Temos a responsabilidade de passar a mensagem de ‘não compre já, espere’. E ensinar a ser consciente nos gastos”, conclui.
A “Reútil” está localizada no Centro Comercial Golden, na Avenida Sá da Bandeira, número 115, 2.º andar, loja 12, em Coimbra. O espaço está aberto de segunda a sexta-feira, entre as 15h00 e as 19h00.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 06/02/2026]