6 de Dezembro de 2022 | Coimbra
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Rabarrabos: uma história, uma vinha e um vinho

23 de Setembro 2022

Setembro também é sinónimo de vindimas. É neste mês, ainda solarengo, que se pegam nas tesouras e nos posseiros, se conduz o trator e se ruma à vinha para apanhar a uva e preparar mais um “néctar dos deuses”. Neste caso, o “Despertar” foi conhecer a vinha Rabarrabos, em Penela, da Fundação ADFP de Miranda do Corvo, uma instituição que “engarrafa emoções”.

Estamos em plena vinha Rabarrabos, em São Sebastião, do concelho de Penela. Segunda-feira (19) marca o início da vindima dos tintos na sub-região Terras de Sicó da Fundação ADFP que assume um papel preponderante enquanto produtor na promoção do património vinícola da região.

Proprietária de vários hectares de vinha entre os concelhos de Miranda do Corvo, Penela e Condeixa, a instituição mirandense produz néctares de elevada qualidade que é comprovada pelos vários reconhecimentos nacionais e internacionais, cujo lucro das vendas revertem na totalidade para a ação social da ADFP.

Pelas 07h00 da manhã já havia pessoas de tesoura na mão a apanhar as uvas naquela vinha, situada num vale com uma apaixonante paisagem entre os limites dos distritos de Coimbra e Leiria. Com cerca de dois hectares e com mais de 30 anos, esta é considerada uma vinha velha.

“Todas as uvas que daqui saem vão dar origem ao nosso Rabarrabos 2022. Aqui, produzimos essencialmente tinta roriz, trincadeira, Fernão Pires e Touriga Nacional e todas estas castas são fermentadas em conjunto, a técnica chamada blend”, acrescentou.

Enquanto se desfrutava da natureza, da calmaria e da tranquilidade que se respirava nas fileiras das videiras, com o aroma a uva, víamos os colaboradores da Fundação ADFP a vindimar. Em pouco tempo, enchiam os vários posseiros com os cachos bem grandes e de cor viva e carregavam-nos ao ombro até ao trator para irem até à adega, localizada em Miranda do Corvo.

O enólogo ficou mesmo com um ar surpreendido quando observou as uvas. “Não costumam ser tão grandes”, comentou ao esclarecer-nos que apesar da grandeza do cacho, “não significa que vai haver mais vinho”. “Vamos ver o que acontece daqui a pouco na adega”, disse em tom de curiosidade.

A verdade é que daquela vinha se adivinha uma boa produção e um vinho de excelência. “Se olharmos para esta vinha verificamos que não existe stress hídrico. Vemos, sim, algumas com aspeto amarelado, mas é normal, pois estamos quase no Outono”, analisou Gonçalo Moura da Costa, salientando que este ano se prevê, ao contrário do que se esperava, um aumento de produção.

A vinha de Rabarrabos, que por norma produz cerca de cinco mil litros de vinho, este ano, vai alcançar os seis mil litros e, garante o enólogo, “de qualidade”.

“Queremos manter sempre essa tradição. Desde 2017, quando iniciámos a marca, tem havido uvas para que este nível de qualidade, a que já habituámos os nossos consumidores, continue a fazer parte da nossa missão”, destacou.

 

Um projeto que brinda à inclusão

A verdade é que o projeto vinícola da Fundação ADFP é muito mais do que o ato de vindimar. Naquela segunda-feira, por exemplo, a vinha de Rabarrabos acolheu nove utentes com doença mental da Residência Bondade, uma das valências da instituição mirandense. “Vieram ter esta experiência de como se faz a vindima”, disse Gonçalo Costa.

Assim foi, aquelas vinhas foram invadidas de alegria de simples pessoas que ao sentirem que estão a ser úteis ficaram felizes e até agradeceram por aquele momento. Pegaram nas tesouras e de sorriso no rosto apanhavam as uvas. “O meu pai tinha vinhas e desde os meus 12 anos que vindimava com ele”, partilhou uma utente. O senhor Jorge, que parecia ter bastante jeito para a atividade, enquanto apanhava os cachos também nos contava que o seu pai gostava muito de vindimar.

Outros, apenas quiseram apreciar a vinha e até mesmo comer uma uva ou outra. “Que delícia! Estas uvas são mesmo saborosas”, ouvia-se entre as fileiras da vinha.

“Tentamos que as vindimas sejam um motivo de festa e não é por acaso que afirmamos que ‘engarrafamos emoções’, pois desde a vinha até ao produto final é isso mesmo que acontece”, vincou o enólogo da ADFP.

Após a vindima, as uvas viajam então para adega. Ali, aguardam umas horas em refrigeração para não ficarem muito quentes para depois se iniciar o processo de desengaço.” É o momento de entrar na adega para fermentar as uvas e iniciar o ciclo do novo Rabarrabos 2022”.

Após a fermentação alcoólica, é hora de transportar para as cubas de inox, onde se vai desenvolver a fermentação malolática (para redução da acidez do vinho), seguindo para a cave a uma temperatura e humidade controladas. “Durante pelo menos nove meses vai ficar a estagiar em barricas de carvalho americano e inglês”, referiu.  Depois, é tempo de provar e brindar a um novo “néctar dos deuses” nas mesas portuguesas e até internacionais.

 

À descoberta da vindima com propósito

Todo o projeto vitivinícola da Fundação ADFP “tem um propósito social”, afirmou Gonçalo Costa, apontando para os colaboradores. “Aqui, estamos a ver pessoas habituais da vinha e da adega, da jardinagem e da exploração agrícola, acompanhadas por vários utentes”.

Esta é uma das vinhas, muito inclusiva “que espelha a realidade que somos enquanto sociedade, em que todos temos tempo, espaço e possibilidade de desenvolver as nossas aptidões”.

“Aqui o que diferencia os nossos vinhos é, sem dúvida, a componente humana em que todos participamos. É um trabalho feito com delicadeza e carinho por pessoas diferentes que na diferença encontram pontos em comum”, revelou.

As vindimas da Fundação ADFP são, assim, sempre um tempo alto da vinha, cheias de vida, de festa e de pessoas. Crianças, idosos, pessoas com deficiência e doença mental participam nesta atividade, contribuindo para o resultado coletivo. “Encaramos a viticultura como uma forma de criar postos de trabalho, contribuir para a sustentabilidade da organização, promoção dos vinhos da sub-região de Sicó e para o desenvolvimento regional”, considerou o enólogo.

 

Programa especial das vindimas

A vindima do Rabarrabos que o “Despertar” acompanhou na segunda-feira (19) incluiu-se no programa especial que a instituição mirandense criou para a época das vindimas e que decorreu durante toda a semana. A Fundação ADFP, além do vinho Rabarrabos, é detentora de outras marcas vinícolas, como Terra Solidária, Paixão Natural, Monte Isidro e Tolerantia. Néctares que se distinguem pelo “terroir”, clima, solo e, acima de tudo, pela mão humana.

 

Rabarrabos: uma homenagem à terra e às gentes

 

O vinho Rabarrabos nasce em 2017 em homenagem à aldeia onde se situa a vinha deste néctar que antes de se chamar São Sebastião, denominava-se de Rabarrabos, no concelho de Penela. Trata-se, assim, de um vinho que retrata a memória do passado e é um tributo à aldeia que o viu nascer e crescer até amadurecer e ir para as mesas dos consumidores.

A marca Rabarrabos passa a ser um vinho raro, detentor de reconhecimento internacional em todas as suas colheitas já apresentadas e em comercialização: 2017, 2018 e 2019. Foi medalhado em concursos como o Berliner Wine Trophy 2021 ou no no Asian Wine Trophy 2021, um dos maiores concursos de vinhos do mundo.

Um vinho que tem obtido repetidas medalhas de Ouro em Milão, Berlim e Seoul, tornando-o num vinho Terras de Sicó para apreciadores exigentes.

“Queremos também ter um reconhecimento nacional cada vez maior e chegar aos portugueses para que apreciem os nossos vinhos”, ambiciona o enólogo Gonçalo Costa.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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