30 de Maio de 2024 | Coimbra
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Projeto do CROAM convida-o a ir passear o cão

5 de Abril 2024

O Centro de Recolha Oficial de Animais de Matosinhos (CROAM), no Porto, tem um projeto que tem vindo a ganhar cada vez mais interesse por parte da população. Chama-se “Vá Passear o Cão” e tem como principal objetivo promover o bem-estar dos animais alojados no centro. Contudo, a experiência acaba também por ser benéfica para os participantes, sendo que 80% chegam mesmo a voltar para repetir a experiência.

A ideia surgiu em finais de 2019 como forma de fazer face a uma problemática presente em espaços como o CROAM: a sobrelotação severa nos canis. “As instalações tinham menos jaulas do que têm hoje e estávamos a chegar a um ponto em que tínhamos muitos animais e uma equipa insuficiente para essa quantidade. Os cães passavam, por isso, muito tempo fechados”, explica a médica veterinária do centro, Liliana Sousa, em declarações ao “Despertar”.

Por não ser benéfico para os cães, – nomeadamente, em termos de stress -, surgiu a necessidade de encontrar uma solução que permitisse aos fiéis companheiros de quatro patas ter momentos ao ar livre. No entanto, aumentar o número de funcionários não era exequível, por isso, o rumo acabou por ser outro. “Tínhamos muitos pedidos de pessoas, por simples curiosidade ou por serem aficionadas à causa, a perguntar se podíamos aceitar voluntários”, conta a responsável. Nasce, assim, o mote para um programa que une a vontade da população em ajudar animais vulneráveis à urgência de um centro em proporcionar bons momentos aos seus patudos.

 

Mais de 1.200 passeios em 2023

“Vá Passear o Cão” é um programa completamente voluntário. Nesse sentido, há quem o procure para ter uma experiência e, por outro lado, há quem regresse várias vezes na mesma semana. Para participar, os interessados têm apenas de preencher um formulário de inscrição e assinar um termo de responsabilidade. Posteriormente, começa a aventura.

“Quando se trata do primeiro passeio, há sempre alguém, da nossa equipa que vai acompanhar o voluntário. Quando já são participantes recorrentes, vão sozinhos e até se tornam mentores de outros voluntários”, adianta Liliana Sousa. Origina-se, assim, um espírito de entreajuda que já levou a que grupos de oito pessoas se juntassem para ir passear os animais do centro.

Os passeios têm a duração máxima de duas horas e percorrem um trajeto que vai desde o CROAM até ao Parque Ecológico Monte de São Brás, passando pelo Parque da Ciência. O número tem vindo a aumentar significativamente ao longo dos anos. De acordo com o CROAM, “em 2021, foram realizados 665 passeios, em 2022 esse número subiu para 1.103, e em 2023 já foram realizados 1.244 passeios”. A veterinária do projeto não tem, no entanto, dúvidas de que “este ano, vamos ultrapassar esse número”, já que os dados refletem “o interesse crescente da população no programa e a importância que o mesmo tem vindo a ganhar”.

 

Diferentes portes e personalidades

O programa “Vá Passear o Cão” oferece a possibilidade de criar memórias ao ar livre com cerca de 40 cães de diferentes portes e personalidades. Todavia, por forma a garantir que todos os patudos saem do canil por umas horas, “somos nós que escolhemos os animais que os participantes levam”, esclarece Liliana. Na seleção, a equipa tenta sempre encontrar o “match” (combinação) perfeito entre a pessoa e o cão. “É um trabalho muito responsável e ponderado, porque não queremos que nada corra mal”, sublinha.

Além da promoção do bem-estar dos bichos, o programa pretende ainda sensibilizar a população para a causa animal, contribuir para a socialização dos animais e aumentar a divulgação dos animais para adoção. Deste modo, nos primeiros passeios, foram usados coletes com a frase “não compres, adopta-me”, o que contribuiu para que mais pessoas ficassem a conhecer a iniciativa e se quisessem juntar.

“Normalmente, são pessoas que gostam muito de animais e que vivem muito aquele momento. Vivenciam a questão do cão e a sua história, o que cria uma carga emocional muito grande”, frisa a veterinária. A ligação entre os participantes e os cães torna-se tão forte que, os primeiros, “começam a sentir-se parte da causa animal e vivem as ações e os finais felizes da mesma forma que nós. Alguns, de lágrimas nos olhos, quando descobrem que determinado cão foi adoptado”, acrescenta.

Há ainda casos em que os passeios regulares se eternizam, já que o próprio voluntário acaba por tornar-se adoptante. “Cerca de 20% dos animais que estavam na nossa lista para os passeios foram adotados pelas pessoas que os passearam”, salienta Liliana Sousa.

 

Terapia em dose dupla

Se há quem acredite que o “Vá Passear o Cão” é uma mais-valia apenas para os seres de quatro patas, o CROAM vem desmentir essa teoria. Caracterizando o programa como “terapêutico”, a veterinária não tem dúvidas de que as vantagens surgem em dose dupla. “Quando um animal contacta com várias pessoas, estamos a trabalhar a sua socialização, o que é ótimo. No entanto, esta é também uma terapia para os voluntários. Toda a gente ganha”, afirma.

A responsável admite que, na maior parte das vezes, “são os pequeninos que despoletam esta vontade nos pais”, sobretudo, quando estes têm vontade de ter um patudo e, por questões financeiras, não conseguem. São, por isso, muitas as famílias que se fazem acompanhar pelas suas crianças na realização destes passeios. “Saem daqui com aquela sensação de dever cumprido, porque sabem que vieram ajudar uma causa”, diz.

 

Com o pensamento direcionado para a questão da adoção, o CROAM desafia todos os participantes do programa a tirar fotografias aos passeios e a partilhar nas redes sociais, afinal, “toda a ajuda é bem-vinda”, apela. Segundo Liliana Sousa, “em 2023, não conseguimos atingir o número de adotados que tivemos em 2022”, lamenta. Contudo, os passeios não pararam de crescer. “Cada vez mais, as pessoas têm dificuldade em avançar para uma adoção, mas canalizam o seu tempo livre para um programa de voluntariado”, assume.

O “Vá Passear o Cão” é, pelo seu propósito, uma fonte de inspiração, não só para pessoas, mas também para organizações. “É um orgulho para nós perceber, sobretudo, que podemos estar a dar ideias para outros municípios replicarem projectos como este”, conclui. As candidaturas aos passeios podem ser feitas no site da Câmara Municipal de Matosinhos.

 


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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