16 de Julho de 2024 | Coimbra
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MANUEL BONTEMPO

Postal Ilustrado

8 de Março 2019

Inteligente. Sempre preocupado com a originalidade nas telas e na lógica da narrativa com pendor filosófico, como ele gostava de ser “chamado de filósofo” rejeitando tudo que não tivesse o rótulo. Prestigioso na pintura, na conversa, e considerava frioleiras todo o bate-papo que não tivesse inspiração ou ordem da palavra a um fim elevado.

Personalidade sui generis foi um pintor de génio, invulgar, não imitando e os seus “Nocturnos” foram um grito de alerta a uma sociedade desumanizada e a sua curiosidade intelectual nasce de uma inteligência aguda, perspicaz e mordaz.

Os desprezados, os sem-abrigo, nem eira nem beira foram nos anos 60 e 70 do século XX a efervescência criadora de um dos mais destacados pintores de Coimbra e do país.

Filósofo teve sempre o sentido de sofrimento alheio e o seu ceticismo de uma refinada acuidade levou-o a tratar o Homem como centro da sua obra.

Lúcido e consciente. Pensador e nefelibata teve no extinto Café Arcádia a tertúlia onde surgiu, de vez em vez o grande escritor Miguel Torga, com pouca demora, Nunes Pereira, Orlando Carvalho e outros, intelectuais e artistas, Vítor Matias, César Abbot, Fausto Sampaio, Amâncio Frias, Teles Marques, Jorge Peixoto, e muitos iam na conversa de Hébil…

Mostrava com gosto refinado a estrutura do seu universo e a sua existência agnóstica mas nas horas de aflição voltava-se para um raio de luz. Foi assim com a doença de sua filha.

Pintor diferente. Para além da sua figura trágica das suas telas, no tempo únicas no país, pintou a paisagem em pequena escala mas elaborada com o entusiasmo da criatividade e imaginação não usual como tivesse descoberto uma partícula científica benéfica ao universo.

Vestia como um lord, engravatado, debaixo do braço os apontamentos e onde sobressaía o livro que estava a ler.

Possuía uma faculdade captadora do ser, dos outros, que, em boa verdade todo o mundo de Coimbra, naquele tempo gostava de ouvir o pintor e filósofo que marcou pela valia e originalidade o chato quotidiano!…

Era exigente e sarcástico e por vezes petulante, arrogante e não tolerava os intriguistas e as rivalidades sem sentido.

Já para o fim, o peso da idade, abandonou a sua atitude cruel em relação aos rivais, a mestres, os grandes nomes que na década de 70 e 80, existiam em Coimbra, como Vasco Berardo e os seus irmãos, Mário Silva, Cunha Rocha, Pinho Dinis, Lúcia Maia, Susana Harrison, Jacqueline Moys, Helena Toscano e o consagrado José Contente e outros, e mostrou surpreendentemente uma verdadeira humildade e começou a venerar os mestres, seus contemporâneos, a pintura de Coimbra promovendo à mesa do café uma constante oração ao amor a Coimbra.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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