25 de Setembro de 2021 | Coimbra
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MANUEL BONTEMPO

Postal Ilustrado

15 de Fevereiro 2019

Se a pintura é para Tomás de Aquino: “O belo que tudo agrada à vista”, a de João Morais não se insere nesta definição tomista porque não tem a predisposição para uma ordem estética imediata, de agradar no intuito compreensivo do objeto, da coisa bela, e revela parte das telas o inexistente, como elementos inacabados, que se desarticulam, e procuram juntar peças num ângulo repetitivo, o bem dizer ilegível, ou como o autor prefere os seus quadros serem antinomias intelectuais de consonância inteligível, e a arte surge assim na originalidade bizarra das emoções do pintor, deste artista na busca da correspondência obra-público.

Falta-lhe, por vezes, os requisitos fundamentais para o diálogo ser aberto, franco, por via de tendências filosóficas do professor-pintor um traço coerente onde se vislumbre um átomo de beleza tomista.

A sua pintura tem um conceito nefelibato longe dos clássicos e serve os planos com inteligência distorcida servida por linhas enviesadas ou rebeldes (se quisermos dar um conceito de beleza esparsa) numa total indiferença pela elementar pureza por mais relativa que seja.

Há, no entanto, em João Morais um estado psicofisiológico que ordena, paradoxalmente, as emoções do artista numa estrutura pós-modernista, que vincula a sua personalidade sem efeitos essencialmente secundários ou supérfluos.

É arte? Sim senhor! Mas não é nenhum tratado intelectual sobre pintura como deixa adivinhar ou afirmar, a espaços, na sua eloquência expressa em público…

É esta arbitrariedade de valores neste artista andarilho por partes da Europa que lhe empresta singularmente honestidade, de vestir a sua própria roupagem numa reminiscência do supra-realismo dos anos 40 do século passado a modos de Dali, Picasso, Braque e outros, como teorias psicanalíticas dos sonhos, dos recalcamentos. Das visões pictóricas dos surrealistas, dum grande estado de vigília após um sono que trouxe a este obreiro da arte, o drama da arte, numa visão simbólica, que exclui o natural, o impressionismo, a natureza, e ficam as emoções do artista, que pode ser amor ou ódio, numa orgia de liberdade sem freio racional.

Outra beleza, esta de João Morais!

Destrói numa assentada a mansidão da beleza escolástica, da arte bela para ser vista e sem enfeites dá-nos o seu subconsciente, a libido como necessidade corporal, de agarrar os pincéis, num pansexualismo freudiano numa ânsia da diferença, na sexualidade latente dos estados emocionais.

A beleza assim é introspetiva, tem uma leitura carregada de visões e é exuberante na simbologia do eu-arte, numa configuração e numa transmutação da libido.

A sua pintura representa uma conceção de vida que serve para ilustrar as suas asserções sem hegemonia estética mas o espelho da sua visão intelectual como professor, artista que procura o senso comum como aspiração de novos caminhos.

Vale também esta exposição na legitimidade do seu valor pelo capítulo de algo de novo, mesmo nefelibata, dos méritos respetivos como obra de arte.

É autêntica? Na sua visão incomum!


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